Sobre a queda de uma aeronave na ilha do Pico

Na tarde do dia, 22 de maio de 2017, recebi de um conhecido, entusiasta da aviação e, também, colecionador e fotógrafo de aviões, uma mensagem eletrónica na qual era questionado sobre o assunto em título. Perguntava-me se tinha conhecimento da queda de uma avioneta na ilha do Pico, na década de 60 do século findo. Mas, além das informações que lhe pudesse adiantar sobre o assunto, esta pessoa desejava ainda saber se havia fotos e notícias de jornal, ou outras, sobre o assunto.

Não sabia, na altura, se a pessoa que se me dirigia dispunha de elementos concretos sobre o sucedido, mas pelos pontos de interrogação utilizados na parte final do curto texto que me enviou, fiquei convicto de que quaisquer eventuais pesquisas por si efetuadas no sentido do satisfazer a sua curiosidade acerca desta matéria não teriam surtido o resultado esperado.

Agradeci o seu interesse e respondi-lhe, no dia 27 imediato, que essa ocorrência, apesar de ser do meu conhecimento, não constava, que soubesse, da literatura da área, pois nem o Pássaro de Ferro, no seu extenso trabalho sobre acidentes aéreos nos Açores (Contingências da Sinistralidade), nem a própria Aviation Safety Net (em http://aviation-safety.net/ ) a haviam registado. Isto é, nem uma, nem outra fonte mencionavam qualquer ocorrência na ilha em questão, na década referida.

Por sua vez, da base de dados do Voa Portugal não constava também qualquer entrada sobre esse acontecimento. Ainda assim, pedi ao meu interlocutor alguns dias para verificar melhor as minhas fontes e consultar outras referências credíveis da literatura do domínio. Na minha cabeça, nessa altura, estavam apenas o acidente com o S-16A Albatroz, nas Lajes, mas no princípio dessa década, e o sucedido no Pico da Barrosa, em São Miguel, a 12 de outubro de 1968, com o Beechcraft B55 que ali se perdeu.

Falava-se, contudo, de um acidente envolvendo um avião ligeiro que, por esta altura também, teria atravessado o Atlântico, como tantos outros, aliás, em voo de ferry para leste (mas não havia a certeza se com destino à Europa, a África, ou, possivelmente até, ao Médio Oriente) E dizia-se, por motivos então também desconhecidos, que a aeronave se teria despenhado (ou, eventualmente, efetuado uma aterragem de emergência) no interior da ilha do Pico.

Eis senão quando, sequente das minhas diligências para obter, conforme prometido, elementos adicionais sobre este assunto, me lembrei de consultar alguém, natural da ilha do Pico, que, além de engenheiro aeronáutico, é igualmente um estudioso atento das coisas da aviação, sobretudo nos Açores e que, após consulta às respetivas fontes, me adiantou o seguinte sobre este enigma (sim, porque, para mim, tratava-se algo misterioso, que roçava uma espécie de segredo oculto, quase indesvendável quando, supostamente, tal ocorrência deveria ser do conhecimento público):

Que o acidente em causa tinha efetivamente ocorrido, mas em data anterior à que eu supunha, na década de sessenta. Fui, também, informado do local e data da ocorrência, vindo anexada à mensagem que me foi enviada a esse respeito uma imagem que se dizia ser da autoria da Foto Azul, casa comercial de fotografia então estabelecida na cidade da Horta, que documentava o pequeno avião sinistrado, parcialmente visível entre a vegetação existente na zona onde se despenhou. Também parcialmente visível estava a marca de nacionalidade e matrícula da aeronave, bem como a deriva, onde, mesmo assim, se conseguia ver as iniciais e um emblema da entidade a quem iria ser supostamente entregue.

Para este documento iconográfico, que julgamos ser único, posaram, na circunstância, vários habitantes da freguesia mais próxima, que acudiram ao local do acidente, bem como a autoridade que tomou conta da ocorrência, todas devidamente identificadas pelo meu interlocutor. Ora, à primeira observação, a marca de nacionalidade (parcialmente escondida) do avião pareceu-nos ser etíope e as marcas existentes na deriva pertencentes à Missionaries of Charity. Esta marca de nacionalidade, a confirmar-se, seria consistente com a implantação da referida organização em alguns países da África Oriental, incluindo a Etiópia. Foi-me também indicada, na mesma altura, a origem da informação agora transmitida.

Como é evidente, transmiti esta informação ao interessado, dizendo-lhe que, tanto o meu interlocutor como eu, nada mais sabíamos adiantar sobre este assunto. Eis senão quando, dois dias após o envio da mesma, recebi daquele (a 4 de junho) alguns recortes de jornais da época (Telégrafo e Correio da Horta, ambos publicados então na Cidade da Horta), contendo um conjunto de pormenores sobre aquele fatídico voo, julgados indispensáveis à sua reconstituição possível: origem, rota, data e circunstâncias do acidente, destino do voo, ocupante e perspetivas de recuperação da aeronave, mas nada sobre a aeronave em si, ou sobre a sua nacionalidade (que se dizia ser norte-americana). Decididamente, esta pessoa tinha ido consultar os jornais da época, depois de ter tido conhecimento da data do acidente.

Na continuação deste artigo, tratarei de partilhar convosco a reconstituição provável do que terá sucedido com esse voo de ferry sobre o Atlântico até à queda do mesmo na ilha do Pico, afinal em 1965, sem deixar de realçar ainda os esforços efetuados pelo seu piloto, tendo em vista a recuperação do aparelho. Como é evidente, abster-me-ei de identificar as pessoais presentes na foto, apesar dos 53 anos transcorridos sobre a efeméride em si.

Publicado por Ermelindo Peixoto

Professor Universitário: Universidade dos Açores

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