Sobre a queda de uma aeronave na ilha do Pico-II

Segundo notícia publicada no jornal O Telégrafo, na sua edição de 26 de janeiro de 1965, o avião despenhou-se na noite do dia 24, cerca das 21:40L, no lugar do Cabeço Redondo, na direção da freguesia das Bandeiras, concelho da Madalena, Ilha do Pico. Tratava-se de um monomotor, de origem norte-americana, e matrícula etíope (ET-ABN) que partira da Terra Nova, no Canadá, com destino a Santa Maria, com um único tripulante de nacionalidade norte-americana a bordo, de seu nome Cunningham, empreendendo a primeira etapa de uma viagem de ferry daquele avião que o levaria até ao seu novo proprietário, em África.

acidente_Pico ET-ABN Jan1965 Helio U-10D Super Courier

A curta notícia apenas referia que o avião tinha efetuado uma aterragem forçada no local supradito, que a viagem era da responsabilidade da Aircraft Ferrying Company da Florida, nos EUA, e que, no percurso efetuado entre as Flores e o Faial, o avião fora acossado por forte temporal que teria levado o piloto a sobrevoar a Horta, na esperança de encontrar um local de aterragem.

Mais reportava aquele órgão de comunicação social que, como a força do vento dificultasse a manobra do avião, o piloto se vira forçado a descer naquele local da ilha do Pico, para onde se tinha dirigido, segundo informação publicada na edição do dia seguinte daquele mesmo jornal, na esperança de, ao abrigo da montanha do Pico, poder retomar a altitude de que necessitava para poder chegar ao aeroporto mais próximo (agora as Lajes), baldada a possibilidade de fazer descer o avião na ilha do Faial.

Acontece que o avião apanhara ventos contrários ao longo do trajeto que efetuava de oeste para leste, e tomara um rumo que já lhe havia sido dado pela BA-4 (Lajes). Segundo informação emanada da ilha do Pico, já a 26 (e publicada a 27, no mesmo jornal), o piloto terá perdido o rumo em direção às Lajes e tentado depois recuperá-lo, no momento em que sobrevoava a Horta, com recurso à triangulação dos sinais emitidos pelos faróis do Faial e de São Jorge. Terá sido nessa altura, que decidiu contornar a montanha do Pico, de modo a ganhar altitude, embora sem sucesso, devido à baixa velocidade que já então levava.

Foi então que, sem qualquer outro recurso, Mr. Cunningham poisou sobre o arvoredo da zona do Cabeço Redondo, tendo ainda a bordo, na altura em que o fez, 120 galões de combustível. Conforme consta da informação então veiculada, o piloto nada sofreu, mas o avião susteve alguns danos, designadamente na fuselagem e numa das asas. Sabe-se que o trem de aterragem se encontrava sobre o solo, mas a parte traseira da fuselagem ficara suspensa nas árvores ali existentes (a cerca de um metro de altura).

Ora, das notícias veiculadas no dia seguinte à queda do avião ficou-se a saber que o piloto tinha 37 anos, 4.300h de voo e tinha já atravessado o Atlântico em voos desta natureza 16 vezes, tratando-se, portanto, de um piloto experimentado. Da primeira notícia, ficamos a saber que, na manhã do dia 25, Mr. Cunninham alertou os serviços de Busca e Salvamento das Lajes, que andavam já no seu encalço, comunicando-lhes o sucedido e que se encontrava são e salvo, na ilha do Pico. Por sua vez, mal foi conhecida a ocorrência nesta ilha, a PSP e a então Guarda Fiscal tomaram conta da mesma, deslocando efetivos para o local, em cujo propósito foram acompanhados por populares; da notícia publicada a 27, ficamos já a saber mais alguns pormenores sobre o avião: que tinha um raio de ação normal de três horas e meia de voo; que podia transportar entre 4 e 5 passageiros; que efetuava naquela ocasião um voo de entrega; e que trazia a bordo tanques sobressalentes de combustível (para lhe aumentar o raio de ação).

E, além disto, pouco mais era dito sobre o avião: das notícias de jornal não constava exatamente a matrícula do avião, mas sabia-se o seu destino final. E também não constavam dados que permitissem a sua identificação – empresa construtora, caraterísticas, performances, etc. Sabia-se que o aparelho tinha feito 13 horas de voo com ventos contrários, que perdera altitude e que ainda tinha algum combustível. Era também claro que o único tripulante tinha sido acolhido pelas autoridades, que lhe fora proporcionado o acesso às indispensáveis comunicações com o exterior e que tinha recebido, da companhia ao serviço da qual se encontrava, instruções para determinar a possibilidade da reparação do avião, nas Lajes, ou em Santa Maria.

Era conhecida a vontade do piloto em recuperar o avião, tendo provavelmente comunicado essa possibilidade à origem. A notícia publicada a 26 assim dava a entender, embora tal tarefa não fosse de fácil concretização, mesmo atendendo à existência de uma estrada próxima do local da queda. Considerava-se então que as espessas lenhas do local onde o aparelho desceu dificultariam sobremaneira qualquer tentativa nesse sentido.

No próximo artigo desta série, daremos conta das diligências por nós efetuadas no sentido de conseguir a correta identificação do aparelho e de identificar a proprietária do mesmo, bem como o destino que lhe foi dado e se foi, ou não retirado do local com sucesso. Recolhemos também alguns testemunhos do sucedido, de pessoas que então residiam tanto no Pico, como no Faial, e consultámos informação dos arquivos do Voa Portugal e outra endossada em registo pelo Cmdte. José Vilhena, cujo empenho no esclarecimento deste caso relevamos.

(Continua…)

Publicado por Ermelindo Peixoto

Professor Universitário: Universidade dos Açores

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