Ecos da Revolta dos Aviadores de 1931

Os acontecimentos de 1931 ficaram conhecidos por diversas designações: Revolta da Madeira, dos Deportados, das Ilhas e Revolta dos Aviadores, porque, como é caso do militar atrás referido, concitavam diversos esforços de rebelião, vindos do Exército e da Aviação Naval, com focos na Madeira e em algumas ilhas açorianas.

Há tempos, a propósito das comemorações do 25 de abril, fiz referência aqui no Vista Aérea a um técnico de manutenção da TAP que, já na reforma, ainda trabalhou uns anos na manutenção de linha de aviões da SATA e que, na sua juventude, esteve preso em Aljube pela atividade militante exercida contra a ditadura que então nos oprimia.
Soube um destes dias do falecimento, há uns três meses, de um outro reformado da TAP que, nos seus últimos anos de vida ativa, trabalhou muito de perto com a atividade de assistência em escala da SATA e que, contrariamente ao colega referido a propósito da luta contra a opressão salazarista, era uma pessoa politicamente conservadora, simpatizante da causa monárquica, o que, contudo, não desmerece as sua qualidades pessoais.
Não pretendo aqui fazer o seu obituário, pelo que nem concretizarei a sua identificação. No entanto, serve o conhecimento da sua morte para me lembrar que o seu pai fora um dos implicados nas revoltas de 1931 contra as ações ditatoriais do regime que tinha sido instaurado em 28 de maio de 1926 e que Salazar, a partir de 1928, vinha organizando ao seu estilo, que ficou reforçado com o domínio dessas revoltas de 1931, foi consolidado com a publicação da Constituição de 1933, e só viria a ser derrubado pela revolução de abril de 1974. 
Este militar a que me refiro, pai do agora falecido, não foi parar ao Aljube, mas, afastado Exército, teve que exercer as funções de professor do ensino primário para sobreviver e sustentar a sua família, e foi também militante da causa maçónica. Classifiquemos como ironia o facto de um dos seus filhos ter convicções tão divergentes.
Os acontecimentos de 1931 ficaram conhecidos por diversas designações: Revolta da Madeira, dos Deportados, das Ilhas e Revolta dos Aviadores, porque, como é caso do militar atrás referido, concitavam diversos esforços de rebelião, vindos do Exército e da Aviação Naval, com focos na Madeira e em algumas ilhas açorianas. Na continuação das ações do Reviralho de 1927, visavam, sobretudo depois de 1928, travar a consolidação antidemocrática empreendida por Salazar, depois de ser Ministro das Finanças. Na verdade tratou-se de diversos focos revolucionários, sem uma coordenação eficaz que os fizesse coincidir melhor no tempo e conjugar com maior eficácia os meios nas ações, inviabilizando-se assim  o seu potencial de sucesso. Por parte da aviação, estiveram implicados, entre outros, Sarmento de Beires e Francisco Aragão, da base de Alverca.
Foi então que o poder político vigente mandou que fosse utilizada pela primeira vez a incipiente aviação naval portuguesa para sobrevoar, a partir da baía da Horta, algumas ilhas dos Açores, despejando panfletos sobre Angra do Heroísmo, com propaganda a procurar virar a população contra os sublevados. Depois da aventura do Fokker “Infante de Sagres” em 1926, era o primeiro sinal da presença da aviação naval nos Açores. Idêntica operação com hidroaviões foi montada a partir de Porto Santo, para sobrevoar a Madeira contra a revolta que aí tivera início. Os revoltosos foram sendo dominados e os últimos resistentes em S. Miguel, que se tinham apoderado do jornal Correio dos Açores, fundado e dirigido por José Bruno Carreiro desde 1920, foram intimados à rendição por um uma força do Exército fiel ao regime e comandada por um militar terceirense, o coronel Fernando Borges. 
Entretanto, no tecto da prisão do Castelo de Angra do Heroísmo, passou a constar a seguinte quadra, cuja profecia só se concretizaria em 1974:
“Mais uma que se perdeu,
Não vale a pena chorar,
Tanta vez hei-de bater-me, 
Que acabarei por ganhar.”
Que descanse em paz o recém-falecido. Para o seu pai, parte da numerosa galeria dos nossos quase anónimos, mas heróicos, lutadores pela liberdade, que poderia subscrever a quadra atrás transcrita, invocamos o mesmo desejo com a fórmula mais clássica, originada nas nossas raízes latinas: R.I.P.
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