Estranhas derivações sindicais

Espero que a lucidez me defenda sempre de cair em nostalgias do tipo “antigamente é que era bom” …, mas não deixo de estranhar fenómenos recentes como a criação aligeirada de sindicatos paralelos com objetivos de rápida obtenção de resultados exclusivamente corporativos.

Com a liberdade sindical, proporcionada pela chegada da democracia em 1974 e consagrada no texto constitucional de 1975, não tardou muito que algumas classes profissionais tivessem a tentação de se organizarem para obter resultados favoráveis à sua própria categoria, desligando-se da visão coletiva de cada empresa em que estivessem inseridas e, mais ainda, da transversalidade da área de atividade de que fizessem parte.

Mesmo cingido a análise só à aviação civil, verificamos que, ainda na década de 1970, os pilotos e os técnicos de voo “descolaram” do sindicato do pessoal de voo, para formarem os seus próprios sindicatos, que tratassem apenas da respetiva categoria profissional. Fenómeno idêntico ocorreu com os técnicos de manutenção, que criaram um sindicato de classe, abandonando a organização vertical por empresa ou área de atividade. E até algumas chefias encontraram motivação para se considerarem uma classe à parte e constituírem um sindicato de quadros.

Apesar destes passos revestidos de algum elitismo, continuou a haver, durante uns anos, contratos coletivos de trabalho ou acordos de empresa com um tronco comum aos diversos sindicatos, em que os anexos salariais constituíam as principais diferenças.

Como se vê, referindo-me a uma, duas ou três dezenas de anos, estou quase a falar de arqueologia da organização sindical moderna: os jovens que acedem hoje ao mercado do trabalho dificilmente se revêm no que acabei de descrever.

Cito alguns exemplos recentes que servem de demonstração das mudanças de atitude e de opções de dirigentes e militantes sindicais. Quando duas ou mais listas concorrem em eleições para dirigir um sindicato, é relativamente comum que uma perdedora não se conforme com a derrota e trate de formar um sindicato concorrente para, com ele, poder exercer algum poder negocial na empresa ou no setor de atividade onde se integra. Na aviação, para além dos casos já referidos de pilotos e outros técnicos que quiseram sindicatos de categoria profissional, houve vários outros casos, como nas áreas de comunicações, por exemplo que trataram de arranjar representações mais diretas e com resultados mais imediatos, ainda que desligados do resto do coletivo, empresa, ou setor de atividade.

Fora da aviação, assistimos recentemente a casos de divisão e criação repentina de organizações corporativas para obter resultados excecionais através de lutas bloqueadoras. Alguns enfermeiros entenderam-se para paralisar os hospitais, impedindo, na prática, as atividades de cirurgia e, publicamente, quem os incentivava com mais veemência a fazer greve, nem eram os seus dirigentes eleitos, mas sim a bastonária da Ordem a quem não cabem funções dessa natureza, para já não falar do esquema obscuro de financiamento montado para sustentar os aderentes às greves atípicas.

Ainda mais recentemente, os motoristas de pesados dos camiões abastecedores de combustíveis separaram-se da organização sindical negociadora do contrato coletivo da área de atividade e formaram um sindicato só para eles, que ia paralisando o país. Quem os orientava e servia de porta-voz nem era um da mesma classe, mas sim um advogado. O mundo sindical está mesmo a ficar obscuro, para dizer o mínimo!

 

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