Um Poema “Aéreo”

Vitorino Nemésio (1901-1978) é um dos maiores vultos da cultura portuguesa, autor de uma vasta e multifacetada obra: académico, romancista, poeta, cronista, ensaísta, ficcionista, conferencista.

Os mais velhos recordam-se das suas palestras na televisão – “Se bem me lembro” – marcadas pelo sotaque terceirense, origem a que fazia amiúde referência.

Recentemente, deparei-me com uma crónica de Vitorino Nemésio em que este menciona uma viagem de avião por ele efectuada, há 48 anos, durante a qual escreveu o poema que abaixo se transcreve.

A crónica foi publicada no Jornal do Observador, de 16 de Julho de 1971, sob o título de “De Raul Brandão a Régio”, e faz parte da compilação editado no livro: Vitorino Nemésio, Jornal do Observador, Editorial Verbo, 1974, p. 56-59.

Segundo o autor, trata-se de um ”poema-esconjúrio de viagem de avião (14 de Maio de 1971: Montreal – Santa Maria), que, afinal, tributo é à memória do amigo e companheiro de Coimbra”. Esse amigo, ao tempo já falecido, era José Régio (1901-1969).

Em 1 de Abril de 1971, a TAP tinha iniciado a operação comercial Lisboa – Santa Maria – Montreal – Santa Maria – Lisboa. Nessa data, segundo noticiava o Correio dos Açores, o horário dos voos da TAP com escala nos Açores era o seguinte:

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No entanto, para além da TAP, ao tempo faziam escala em Santa Maria, em voos transatlânticos: a Pan American World Airways, mais conhecida como Pan Am (PAA), ligando Boston e Nova Iorque a Lisboa; a Trans World Airlines (TWA) ligando Boston e Nova Iorque a Lisboa; e a Canadian Pacific Airlines (CPC) ligando Montreal a Lisboa. Estas companhias, para além de terem direitos de tráfego nos voos internacionais, tiveram, durante algum tempo, mediante licença precária, direitos de tráfego de cabotagem entre Santa Maria e Lisboa, de forma a colmatarem a incipiente operação da TAP para os Açores. Contudo, o direito de cabotagem daquelas companhias foi restringido à medida em que a TAP foi desenvolvendo as suas operações para os Açores (não podiam transportar passageiros nos dias em que havia voo da TAP), e, depois, foi revogado, dado que a concessão conferia à empresa nacional o exclusivo do tráfego doméstico.

Estava-se, então, num período de mudança de paradigma, em que a TAP atravessou um fase de grande desenvolvimento, afirmando-se perante as companhias norte americanas, que viria a suplantar nestas rotas.

Feita esta breve nota a propósito dos voos domésticos e internacionais que, ao tempo, escalavam os Açores, passemos ao poema:

O sorriso da hospedeira passou do círculo à elipse:

É gomo e foco a voo,

Abriu na rosa supérflua do tabuleiro atoalhado

Fechou nos dentes da moça e no meu medo aéreo:

Fez-se triste em ter que ganhar a vida sorrindo,

Mas dispõe bem, voa connosco.

Eu sei que ela envelhece,

Os reactores do avião serão sucata um dia,

Nós seremos chumbados a maçarico 

Pelos hospedeiros da Funerária,

A viagem terá seu termo ou não, biosférico,

E tudo finalmente se arranjará

Na rosa dos ventos elísios

A 1400 Km à hora (1), com um empurrãozinho à cauda.

Pois é…

Nasce o animal à tarde, cresce de noite, vai a Tebas,

Perguntamos ralados à Esfinge por seus pelos,

Ninguém responde e tudo finge:

É isso a Esfinge.

“Mas”, como diz o Régio, “ao terceiro dia hei de acordar”.

Nessa Presença sim, é que estamos os dois,

No dia de lá.

Por enquanto voo, Amigo, com sílabas e iões, do Canadá.”

(1) Estaremos perante uma chamada liberdade poética, pois em 1971 não existiam aeronaves comerciais supersónicas, nem estruturalmente aptas a suportar tal velocidade.

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