Bairrismos

“A opinião instalada entre nós que não existem açorianos, mas sim micaelenses, terceirenses e faialenses, é uma rematada loucura e contra ela há que lutar.” – José Agostinho

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, na mesma data.

Gostamos de recordar que José Bruno Carreiro, fundador e primeiro diretor deste jornal, escrevia há perto de 90 anos que, enquanto existisse uma mentalidade que alimentava o bairrismo em vez de unidade insular não havia que pensar em açorianismo: no fundo só haveria terceirismosanmiguelismofatalismo na massa das populações, só meia dúzia de homens tinham uma noção mais alta da palavra Açores. Os outros viveriam agarradinhos às invejazinhase aos despeitozinhos de cada ilha. “Parvos, no fundo, mas suficientemente espertos para compreenderem o partido que tinham a tirar, para as suas glórias, da exploração da patriotice ilhôa”.

E não se pense que era só um micaelense a falar – o ilustre terceirense José Agostinho expressaria, três anos depois, idêntica linha de raciocínio: “a opinião instalada entre nós que não existem açorianos, mas sim micaelenses, terceirenses e faialenses, é uma rematada loucura e contra ela há que lutar”.

O mesmo José Agostinho, a meio da década de 1930, referindo-se à missão francesa que por aqui explorava em que ilha poderia encontrar melhores facilidades para apoio aos voos transatlânticos dos hidroaviões de então, desabafava: “se tivéssemos aqui um abrigo de emergência, talvez que as suas vistas se voltassem para a Terceira, que na realidade bem merecia ter qualquer coisa que a desviasse por uma vez dos touros e das cracas”.

É altura de fazer uma breve declaração de interesses: nasci e vivi na Terceira a maior parte da minha vida, admiro e sou solidário com a luta que os terceirenses, tal como os marienses, faialenses e picoenses, desenvolvem para não serem um simples alimentador do tráfego aéreo via S. Miguel. Mas fico muito desconfiado quando são invocadas teorias da conspiração como a de o Governo Regional ter retirado, da Terceira para S. Miguel, os voos da Delta Airlines, apesar de esses voos constituírem alegadamente uma contrapartida americana pela redução da atividade da Base das Lajes. Como fico também incrédulo perante a ligeireza com que alguém com palco na comunicação social atribua à SATA a intenção de prejudicar deliberadamente a Terceira a favor de S. Miguel no planeamento da sua atividade.

O Faial e o Pico querem mais e melhores ligações para Lisboa e têm boas razões para essa pretensão. Mas por que razão há de ser só a SATA a ter a obrigação de satisfazer tal desiderato, sendo certo que essas rotas, sendo obrigações de serviço público, não são asseguradas em regime de exclusividade nem mediante direito a indemnizações compensatórias? Recorde-se que a TAP abandonou essas rotas há quatro ou cinco anos.

A Terceira quer ligações para a América e alguns opinadores entendem que tal se justifica durante todo o ano, sendo que é a SATA que não sabe promover a Terceira. Admitindo que sim, ocorre perguntar por que não se reclama tal ligação também à TAP, já que esta se propõe realizar cinco voos semanais entre Ponta Delgada e Boston e nenhum para a Terceira.