Quem quer casar com a Joaninha? II Série (3)

Joaninha, muito destoa / Que os teus novos tutores, / Mui afamados gestores, / Venham todos de Lisboa.

A Chegada Triunfal dos Novos Procuradores

– Xó! Xó! Xóóó! – gritou o cocheiro. As ferraduras escorregaram no empedrado da rua, frente ao Palácio.

Curiosas com o alvoroço, algumas aias e outros serviçais da Joaninha assomaram às janelas do Palácio. Alguns chegaram a pensar que poderia ser a chegada tardia de um Pai Natal, que se tivesse perdido no nevoeiro que acontecera por altura da festa.

O ajudante do cocheiro apeou-se rapidamente e, solícito, abriu a porta da carruagem e ajudou a sair os seus ocupantes: uma dama e dois senhores com ar austero e altaneiro.

Os personagens ajeitaram as roupagens, olharam de soslaio para o edifício e um deles fez um comentário inaudível que fez sorrir os demais.

Entretanto, o cocheiro e o seu ajudante retiraram da bagageira uma grande arca de tampa abaulada, forrada a couro castanho com pregos de cobre que reluziam ao sol daquela manhã morna de Janeiro.

O trio pôs-se em marcha para a entrada do Palácio, seguido de perto pelo cocheiro e seu ajudante que carregavam a arca, segurando-a pelas pegas laterais. Dado o esforço que pareciam despender, a arca seria pesada.

– Quem serão estes ilustres visitantes? – inquiriu uma das aias.

– Não são visitas. São os novos Procuradores da Joaninha. Acabam de chegar da Corte e são investidos hoje – esclareceu outra aia que, sendo prima de um secretário, estava bem informada.

– Então vêm todos da capital do reino? Não encontraram nem um só capaz no Condado? Parece impossível – disse uma mais refilona que ficou sem resposta.

– E a arca, o que trará? – tornou a primeira. – Serão as roupagens?

– Não iriam trazer as roupagens todas juntas – disse outra especializada na rouparia.

– Devem ser prendas para a Joaninha – disse excitada uma outra, talvez antecipando o gozo que teria em ajudar a esvaziar a arca.

– Esperemos que seja o dinheiro para o pré! – disse uma que andava sempre preocupada com a possibilidade de o salário falhar.

Intrigadas com o mistério da arca, as aias arranjaram pretexto para que uma delas, mais atrevida, se deslocasse ao piso onde ficava a Sala Grande dos Actos e aí espreitar por entre os cortinados de veludo. Porém a iniciativa não resultou – a arca continuava fechada.

Apenas no dia seguinte o secretário segredou a sua prima o conteúdo da arca: vinha cheia com os diplomas e certidões dos muitos bacharelatos dos Procuradores; louvores e comendas recebidos; detalhados curricula vitae e outra documentação relacionada. Segundo ele, os Procuradores pretendiam “afogar” na arca quem quer que pusesse em dúvida as sua altas qualificações e experiência.

Aliás, as muitas experiências e bastas qualificações dos Procuradores pareciam constituir uma verdadeira obsessão para os próprios, para o Chanceler-Mor e para o Regente. Estes já tinham manobrado para que a Gazeta publicasse extensos artigos e reportagens descrevendo os feitos salvíficos levados a cabo pelos Procuradores em diversas latitudes e longitudes. Do Brasil à África, passando pelo nosso reino e chegando até a uma remota ilha junto ao Pólo Norte, estavam-lhes eternamente gratos pelos prodígios de gestão feitos na salvação de patrimónios de rainhas, de princesas, de nobres damas e afins.

Os gazeteiros, habitualmente críticos verrinosos dos Procuradores da Joaninha, deslumbrados, genuflectiram e incensaram estes novos Procuradores como verdadeiros Deus ex machina”, capazes de resolver as dificuldades, aparentemente insolúveis, por que passava a Joaninha.

No entanto, em vez do cheirinho agradável a incenso, usual na procissão do Santíssimo, pairava um odor pútrido da sabujice.

O novo Procurador-Mor declarou que ao fim de cem dias teria pronto um plano de salvação para a Joaninha, dizendo, também, que iria doer e que demoraria a passar.

Perante tão enigmática afirmação logo se suscitaram interpretações divergentes acerca de a quem iria doer e por quanto tempo. Seria fastidioso enumerar aqui essas opiniões. Porém, como o povo costumava dizer “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”, muitas pessoas da corte da Joaninha começaram a prover-se de mezinhas contra as dores (tanto mais que as boticas do Condado frequentemente esgotavam as suas reservas).

Reinava, pois, no Condado um clima de generalizada expectativa acerca do que iria brotar ao fim dos cem dias. A situação assemelhava-se à vivida por aquelas crianças que, volta e meia, contam os dias que faltam para o Natal.

Havia apenas um pequeno “porém” (há sempre um), como pulguinha em barriga de gato: insignificante, mas causadora de infindável coceira. Não só um dos Procuradores fazia gala em ter sido conselheiro do Pretendente que Veio do Frio, como constava que o Procurador-Mor também o tinha sido (recorde-se que este Pretendente exigira nomear Procuradores da sua confiança para gerir o património da Joaninha antes de tomar uma decisão sobre o casamento.

Ora, isso começava a causar certa inquietação em relação aos propósitos destes Procuradores. Seria que vinham a mando daquele Pretendente? Seria que o Chanceler-Mor e o Regente, desesperados por casar a Joaninha, tinham aceite as condições impostas por aquele Pretendente?

Infelizmente, as decisões do Regente e seu Chanceler-Mor eram caracterizadas por alguma opacidade, quiçá influência das brumas que com alguma frequência rondavam o Condado.

A chegada dos novos Procuradores da Joaninha era tema obrigatório de conversa por todo o Condado. Na tasca do Largo, um dia o Zeca “Cantor” botou as seguintes quadras:

 

Joaninha, muito destoa / Que os teus novos tutores, / Mui afamados gestores, / Venham todos de Lisboa.

Nem um só regional, / Coisa nunca dantes vista, / Apesar de parecer mal / À gesta autonomista.

Porque milagres não fazem, / Aos da casa pancada dão. / E os de fora ao colo trazem, / Em extasiada adoração.

Narram as suas histórias, / Contam suas muitas glórias: / As maleitas que curaram, / As Princesas que salvaram.

São bons especialistas, / Uns verdadeiros doutores, / Dispensam anestesistas, / Fiéis à Senhora das Dores

Temem-se cortes e emendas, / Que uns fiquem sem os braços, / Outros sem os pés ou pernas, / Alguns só nus e descalços.

Falam muito dos salários, / Mas cobram bons honorários. / Para os outros sacrifícios, / Para eles benefícios.

Neste mundo desigual / Uns ganham e outros perdem. / P’ra poucos ficarem bem / Muitos mais ficam bem mal.

Mas nesta roda da sorte, / Tudo pode acontecer: / Quem agora é rijo e forte/ Pode vir a fenecer.

A vida é muito incerta: / Muito bom e bestial / Vira uma grande besta, / Num saltinho de pardal.

Futuro não se adivinha, / A sorte não se prediz. / Queremos p’rà Joaninha / Vida longa e bem feliz.

 

– Vamos a ver… Vamos a ver!… – disseram, reticentes, alguns dos circunstantes.

Viviam-se, assim, no Condado tempos de curiosa e ansiosa expectativa – fascínio para uns, preocupação para outros, desinteresse ou resignação para os demais.


 

Nota: Esta narrativa não se baseia em factos reais. Quaisquer semelhanças com figuras ou factos conhecidos serão, obviamente, meras coincidências.

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