Em suspenso!

É quase uma tolice escrever sobre este assunto, porque já foi dito quase tudo e o seu contrário, embora se desconheça o essencial. Desde que comecei a escrever o texto que, inicialmente, era limitado às quadras, muitas coisas mudaram. Umas foram refletidas outras não.

Que grande maçada! Evitamos sair de casa, como nos é recomendado. Ir ao restaurante ou ao café com amigos, seria ideia insana, até porque, entretanto, já foram encerrados.

Vamos à janela e apenas esparsamente passa um automóvel ou autocarro. São poucos os transeuntes: alguns a passear o cão (ou alguns cães a arrastar os donos); algumas donas de casa apressadas carregando sacos de compras; uns poucos turistas desnorteados; o estacionamento em frente está vazio.

Ligamos a televisão e todos falam do mesmo – quase dá saudade do tempo em que todas falavam de futebol.

O silêncio tornou-se um pesadelo. Calaram-se os sinos da igreja vizinha que tocavam diariamente anunciando os atos litúrgicos.

Não se ouve o bruaá da rapaziada no fim das aulas. Desapareceu o ruido dos aviões, por vezes irritante (agora já saudoso) – do B737-800 da Ryanair, mais barulhento, ao A320 mais silencioso; ao A320/321neo com zumbido mais mavioso; ao som característico dos turbo-hélice.

Na cidade praticamente tudo está fechado e deserto com exceção de farmácias com pessoas em fila e os (míni e super) mercados sempre com alguém à procura de alguma coisa.

As ilhas, sempre insaciáveis por voos e turistas, querem agora, compreensivelmente, estar isoladas, sem voos nem turistas. E chegou-se ao ponto de, contra a vontade das Regiões, a República (normalmente distraída nestas coisas), impor que a companhia de bandeira mantivesse algumas ligações em nome do assegurar a continuidade territorial!

Que displicência! Tudo começou com uma notícia mansa, como se de trovoada longínqua se tratasse – “não vai chegar aqui” costumava dizer a minha mãe, a sossegar o meu medo de criança. Mas as piedosas previsões de minha mãe quase sempre falhavam. A trovoada ia-se aproximando e adensando e acabava por ribombar sobre a casa fazendo tremer os vidros e outros adereços e os relâmpagos por instantes iluminavam a rua com mais nitidez do que as luzes bruxuleantes que, privilégio das pessoas da vila, alumiavam as suas ruas.

Festejávamos o Natal e o Ano Novo quando se disse que numa cidade da China tinha surgido um novo vírus, mas ainda não se sabia se haveria transmissão pessoa a pessoa.

Quem se importava com umas dezenas de infetados na China? País tão distante, cultura tão diferente – seria pequena a probabilidade de chegar ao nosso país, no extremo da Europa e, muito menos, às ilhas atlânticas tão isoladas.

Briosamente, fomos resgatar, para o nosso oásis, uma vintena de compatriotas que trabalhavam naquela cidade e que se encontravam inquietos perante as proporções das medidas que as autoridades locais tinham imposto.

Que tragédia! Acontece que a situação mundial foi de mal a pior e inverteram-se posições. Desapareceram os oásis no ocidente e, atualmente, é a Europa que se encontra numa situação crítica e a China envia equipas médicas e equipamento para ajudar alguns países, designadamente a Itália. Em muitos países europeus a situação é, agora, caótica com quantidades de infetados e de mortos que, tanto quanto se sabe, ultrapassam o que dizem ter-se passado na China.

Não podemos deixar de ficar assombrados perante este fenómeno, que nos parece reverter às epidemias da antiguidade que a História nos conta. O nível dos conhecimentos científicos atuais fazia crer que tal não seria possível.

Somos dominados por grandes inquietações e enormes interrogações, a que, por enquanto, ninguém sabe dar resposta.

Que catástrofe económica! Em menos de dois meses ruíram todos os orçamentos, todos os planos de negócios. As companhias de aviação perspetivavam para 2020 um ano de crescimento, apesar de algumas limitações pela falta de slots. Em Dezembro passado, a IATA previa: “the global airline industry will produce a net profit of $29.3 billion in 2020”.

Até a SATA, há três semanas, mesmo sem ter elaborado o aguardado plano de negócios, descobrira subitamente a urgência de colmatar uma lacuna no mercado internacional – oferecer a ligação entre Paris e as cidades de Boston, Toronto e Montreal (com paragem na Ilha Terceira)” – criando, apressadamente, uma espécie de hub(zinho) naquela ilha.

Hoje, parte significativa das companhias aéreas têm ou terá em breve a maior parte, se não a totalidade, dos seus aviões parqueados em aeroportos já a abarrotar de aeronaves. A IATA prevê: “airlines will lose $113 billion in revenues this year”, embora talvez seja cedo para previsões.

Numa outra estimativa, aquela organização diz que a aviação apenas terá tesouraria para cobrir as despesas de três meses. No entanto, a situação será mais complexa para muitas empresas, que em plena época baixa, com menos receitas, estão sem liquidez. Os custos fixos e financeiros mantêm-se apesar da frota parada e, mesmo para aquelas cujas receitas já eram inferiores aos custos, agora a receita desapareceu.

Este cenário estende-se a muitos sectores da economia, designadamente, aeroportos, hotelaria, restauração, agências de viagens, carros de aluguer com e sem condutor, comércio.

Todos vão necessitar de apoio económico-financeiro, algum já aprovado pelos Governos. Serão necessários milhões de biliões para amparar as empresas e os empregos. Mas, mesmo com apoios generosos, muitas empresas terão, inexoravelmente, de reduzir a actividade e outras não vão recuperar, elevando o desemprego para níveis preocupantes, como já alertou a OIT – Organização Internacional do Trabalho.

No sector da aviação, a Flybe, que já vinha experimentando graves problemas, entrou em insolvência e é possível que outras sigam o mesmo caminho. Os subsídios e as ajudas que venham a ser aprovados para este sector, tal como está a ser pedido e considerado na Europa, EUA e noutros países, são sem dúvida indispensáveis, mas não resolverão todos os problemas – quem estava mal, assim continuará, pois à actual crise acresce ao lastro negativo antecedente.

Também, como sempre acontece, quando há facilidade de acesso a dinheiro, haverá quem despudoradamente se tente aproveitar para benefício pessoal.

Tem-se equiparado a presente crise a uma guerra. Porém, as guerras, para além do morticínio, destroem infraestruturas e equipamentos sociais que se torna necessário reconstruir. Pelo contrário, quando esta pandemia terminar, a generalidade das empresas estará apta a retomar a actividade de imediato. O problema é que aquelas que sobreviverem não vão recomeçar no ponto em que se encontravam antes, como se de simples intervalo se tratasse. É provável que a tendência consumista, o grau de confiança e a capacidade económica dos consumidores sejam abalados, o que pode levar a que muitas áreas de negócios só gradualmente venham a recuperar. Será o caso da aviação e do turismo e atividades relacionadas.

Em alguns países fala-se na possível nacionalização de empresas essenciais que não possam manter-se no sector privado.

Faltará a confiança para alguns novos investimentos.

Processos de privatização e de venda de participações sociais ficam na gaveta aguardando condições favoráveis. É o caso dos Aéroports de Paris (ADP) e será, também, o caso da falada venda da participação de um dos acionistas da TAP. Provavelmente, será esse o destino do processo de privatização da SATA Internacional, defraudando os hercúleos, ainda que desconhecidos, trabalhos já levados a cabo pela SDEA- Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores.

Que incerteza! Desconhece-se quando o vírus vai ser dominado ou talvez quando vai “hibernar”. Embora o pico da crise possa ocorrer em meados de Abril, talvez, na melhor das hipóteses, só em Junho estará debelada a pandemia, permitindo o regresso à normalidade.

Mais preocupante ainda é a possibilidade de o vírus regressar na próxima época das gripes, eventualmente com alguma mutação, o que nos voltaria a colocar numa situação idêntica à presente, ou, talvez, pior, porque o vírus já se encontrará espalhado pelos quatro cantos do mundo.

Enquanto não for descoberta e produzida a vacina, o perigo é real e, mesmo que seja encontrada a terapêutica eficaz para a doença, a infeção continuará a causar graves problemas económicos e sociais.

Segundo os especialistas, uma vacina não estará disponível antes de um a dois anos. Até lá o grau de incerteza e preocupação serão muito elevados.

Desconhece-se a extensão dos problemas económicos e sociais que a pandemia causará e do esforço que os Estados terão de fazer para lhes fazer face e que consequências terão. Enfrentaremos uma nova recessão? O endividamento que as empresas e os Estados terão de contrair vai conduzir a um quadro de austeridade? As desigualdades económicas e sociais vão aumentar?

Enfim há muitas questões para que ninguém tem resposta e que condicionarão o futuro próximo da sociedade.

Esperança de que: os doentes se curem; se reduza o número de novos infetados; o pessoal médico possa descansar; possamos sair à rua sem medo, apreciar o ruido da cidade, o bruaá da rapaziada, o badalar dos sinos; o movimento dos aviões nos incomode e nos distraia; os turistas sejam bem-vindos; os investigadores rapidamente descubram a vacina e a terapêutica; todos retirem ilações políticas, económicas e sociais desta crise e, que nós, mais velhos, tenhamos a possibilidade de o testemunhar e de passar a dar valor a coisas que até agora desvalorizámos!

                                             

COVID-19

Íamos nós preocupados: / Crise dos refugiados, / Aquecimento global, / E o bem-estar animal,

Eutanásia, p’ros humanos, / O Governo em minoria, / A abundante corrupção, / E a próxima eleição,

Trumps, erdogans e putins, / E outras coisas muito ruins, / Avisos de recessão. / Outros sem preocupação.

Eis então que, de repente, / – Coisinha insignificante – / Um novo vírus brotou / E o pânico se instalou.

O vírus pega a matar / Como ninguém quer morrer, / Para se poder escapar / Todos p’ra casa, a correr.

Apertar a mão, beijar, / Cumprimentos suprimidos, / Tal como acessos de espirros, / De tosse ou de falta de ar.

Os voos já cancelaram, / Os turistas não viajam. / Uns eventos adiados, / E os demais desmarcados.

As escolas encerradas, / Lojas com portas fechadas. / Uns não sabem o que fazer, / Outros fazem sem saber.

Há já empresas falidas, / Bolsas todas afundadas, / Grande preocupação: / Temos nova recessão?

Até o nosso Presidente / Ficou-se em quarentena, / Após tirar uma selfie / Com uma linda pequena.

Uns com medo do contágio, / Outros com a perda do ágio. / Uns pensam como lucrar, / Outros no mundo acabar.

A tomar uma mezinha / Com sua amiga e vizinha / Disse a Dona Eufrásia: / “Para quê a eutanásia?”

E com a sentença pronta, / Como lhe é habitual: / “Deixem o virus à solta, / Que faz limpeza geral.

“A grande vaidade humana / Pensa que tudo domina / Mas, sem sequer se dar conta, / Ignorado vírus a afronta.”

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