Transição justa na aviação – parte 1 de 4

Enquanto a aviação comercial luta pela sobrevivência, numa situação ainda mais precária do que a vivida no ano passado, uma outra ameaça emerge reforçada pela atual crise, porventura mais devastadora e com efeitos a longo prazo.

Gravura do documento “Uma Transição Rápida e Justa na Aviação – Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” (Stay Grounded & PCS – fevereiro 2021),

A aviação civil desenvolveu-se após a Grande Guerra, que terminou em 1918. Tem, portanto, um século de existência. Sofreu naturalmente uma evolução tecnológica assinável e o uso do transporte aéreo democratizou-se nos países mais desenvolvidos, substituindo as viagens de superfície mais longas.

Hoje, a indústria de transporte aéreo atravessa a maior crise da sua história, devido à pandemia SARS-COVID-2. Apesar das boas notícias sobre os programas de vacinação, o COVID-19, com as suas mutações, mantém os governos conscientes de que o vírus ainda não está sob controlo, pelo que as medidas para prevenir e impedir as viagens têm sido reforçadas com o prolongamento do fecho de fronteiras e a obrigação de quarentenas.

Enquanto a aviação comercial luta pela sobrevivência, numa situação ainda mais precária do que a vivida no ano passado, uma outra ameaça emerge reforçada pela atual crise, porventura mais devastadora e com efeitos a longo prazo. Trata-se do crescente movimento para impedir que o tráfego aéreo volte aos níveis anteriores à pandemia, em nome do “verde”.

Os ambientalistas têm vindo a chamar a atenção para a poluição provocada pela indústria aeronáutica, que era responsável por 6% do aquecimento global, antes da pandemia. Tal como a jovem ativista Greta Thunberg, que atravessa o Atlântico num veleiro sustentável, cresce o movimento de pessoas que se recusam a viajar de avião por causa da sua alta emissão de carbono.

Por entre as várias vozes que chamam a atenção para a questão da sustentabilidade do planeta, alguns movimentos dedicam-se à redução do tráfego aéreo, entre os quais o denominado “Stay Grounded”, constituído por uma rede global, com base na Áustria, cujas origens remontam a 2016.

Stay Grounded, como o próprio nome indica, aposta em campanhas pela redução da aviação, bem como contra as suas estratégias ambientais, tais como a compensação de emissões e o uso de biocombustíveis.

Há poucos dias, este movimento Stay Grounded, em parceria com o Public and Commercial Services (PCS), um dos maiores sindicatos britânicos, publicou um documento intitulado “Uma Transição Rápida e Justa na Aviação – Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” (fevereiro 2021), no qual se advoga que a aviação não deve voltar aos níveis anteriores à pandemia e aborda maneiras de garantir uma “transição justa” para os trabalhadores e comunidades afetadas pela redução desta atividade, incluindo o turismo.

Reconhecendo a importância dos riscos climáticos e ambientais, o lobby da aviação civil defende-se dos argumentos “verdes” com medidas e inovações tecnológicas visando reduzir a pegada do carbono. Segundo Karen Walker, editora-chefe da Air Transport World, usar a pandemia para reduzir o número de operadoras e as viagens não é solução. Em todo o mundo, as companhias aéreas estão a retirar os aviões mais antigos e a dar prioridade ao uso de aviões mais novos, mais económicos, menos poluentes e mais silenciosos. Os combustíveis sustentáveis para a aviação também estão a ficar mais disponíveis e mais inovadores. Para a indústria, a aposta deve passar pelos governos incentivarem o desenvolvimento e produção dos novos combustíveis, bem como por aeronaves elétricas, movidas a hidrogénio e híbridas. No dizer de Karen Walker, a solução é restaurar a aviação de forma sustentável, através da tecnologia e da aviação ecológica, ou seja, são as emissões e o impacto ecológico da aviação que devem ser reduzidos e não o número de pessoas que viaja.

Quanto à transição justa preconizada no documento conjunto de Stay Grounded e do PCS, algumas das soluções apresentadas serão irrealistas ou, melhor dizendo, demasiado idealistas, tais como o pessoal da aviação passar a trabalhar nos comboios, o pessoal do turismo trabalhar na agricultura e nos serviços de bem-estar à sociedade, bem como reduzir as transportadoras aéreas a uma empresa estatal ou europeia que assegure apenas os serviços de emergência.

Contudo, o documento levanta questões que nos fazem pensar na mudança de paradigma que a sociedade necessita e que esta pandemia veio expor com maior urgência: o sistema económico visando o crescimento e o lucro estão esgotados. Só por isso, voltaremos ao documento “Uma Transição Rápida e Justa na Aviação – Mudança para uma mobilidade climaticamente justa”, em próximo artigo.

Publicado por Ana Azevedo

Profissional da Aviação

<span>%d</span> bloggers like this: