Transição justa na aviação – parte 2 de 4

…num inquérito realizado a diretores executivos das 500 maiores empresas norte-americanas, 91% destes afirmam que as viagens de negócios vão ser cada vez menos frequentes, sendo substituídas por videoconferências.

Para desenvolver as suas estratégias de marketing, tipicamente, os marketeers da aviação comercial segmentam o mercado de transporte aéreo em três grandes grupos, consoante o motivo da viagem: o de negócio, o de lazer e o de vista a familiares e amigos. Há ainda outros segmentos clássicos, constituindo nichos, tais como as viagens por motivos médicos e religiosos. Mais recentemente, com o embaratecimento das passagens aéreas, surgiram outros subsegmentos, entre os quais o tráfego de segunda residência, pessoas que trabalham numa cidade, mas mantêm a família noutro local ou país, ou pessoas que têm duas casas, geralmente uma em região ou país do Norte e outra no Sul, e dividem o seu tempo entre ambas.

A partir dos três grandes grupos, e sem atender à sub-segmentação a que são sujeitos, para que o produto melhor responda a necessidades particulares, concentremo-nos naquele que, tipicamente, traz maior rendibilidade às companhias aéreas: o tráfego de negócios. Durante o confinamento a que a pandemia COVID-19 nos obrigou, quantas reuniões, seminários e tantas outras transações foram virtualizadas, através de videoconferências, webinars e outras formas de comunicação que não fizeram parar os negócios, mesmo dentro daqueles que a pandemia forçou a parar e, como tal, se viram obrigados a renegociar contratos, reduzir os ativos, enfim, negociar? Dito de outro modo, quantas viagens escusadas os homens e mulheres de negócio realizam por mês, por ano, das suas vidas apressadas? Dirão: os melhores negócios são cara-a-cara, idealmente à mesa, a partilhar uma refeição ou um copo, são as conversas à margem das reuniões, dos seminários, é a rede que se cria e que dá oportunidade a novos negócios. Sem dúvida, os negócios fazem-se de relações de confiança. Até uma simples venda tem todos os contornos de uma relação (cada vez mais com as marcas e não com as pessoas, mas isto é outra conversa), como muito bem sabem os povos com tradição mercantil (quem não comprou um tapete de que não precisava, à volta de um chá e de uma boa conversa?). Ainda assim, são mesmo necessárias tantas reuniões presenciais?

Dizem os defensores de uma economia verde, ao advogar a redução do tráfego aéreo, que as viagens de negócios podem e devem ser reduzidas. Segundo o documento conjunto do movimento Stay Grounded e do Sindicato britânico PCS, “Uma Transição Rápida e Justa na Aviação – Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” (fevereiro 2021), “a adoção de conferências online durante os confinamentos pandémicos pode continuar a substituir as viagens de negócios frequentes”. A comprovar tal desiderato, num inquérito realizado a diretores executivos das 500 maiores empresas norte-americanas, 91% destes afirmam que as viagens de negócios vão ser cada vez menos frequentes, sendo substituídas por videoconferências.

No referido documento, lê-se que, antes da pandemia, a aviação era o meio de transporte que maior impacto provocava no clima, sendo também a fonte de gases com efeito de estufa que apresentava um crescimento mais acelerado. As emissões da aviação civil foram responsáveis por 5,9% de todo o aquecimento global provocado pelas atividades humanas em 2018. E apontam números que nos fazem pensar: metade deste impacto foi provocado por passageiros frequentes, os quais representam apenas 1% da população mundial, quando mais de 80% das pessoas nunca entraram num avião.

Gravura do documento “Uma Transição Rápida e Justa na Aviação – Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” (Stay Grounded & PCS, fevereiro 2021),

Ora, os passageiros frequentes, tipicamente os homens e as mulheres de negócios, têm estilos de vida acelerados, entre reuniões e viagens, permanentemente conectados à empresa, aos clientes, fornecedores ou partes interessadas. As pausas são geralmente curtas, sendo muitas vezes feitas à custa de novas viagens para lazer ou para visitar a família e os amigos.

Apesar da adrenalina viciante, mas também esgotante, quem não imagina um estilo de vida desacelerado, com uma organização diferente do trabalho, tal como a redução e a flexibilização dos horários laborais, a possibilidade de tirar licenças sabáticas, e aí sim, poder viajar, desfrutar das viagens propriamente ditas e não somente do local de destino, ligar-se às populações locais, enfim, transformar-se num viajante e não apenas num passageiro ou em mais um turista?

Citando o documento que serve de mote a este artigo (Stay Grounded & PCS, fevereiro 2021), “a aviação é uma peça central do capitalismo globalizado hiper-móvel, incluindo viagens de negócios e transporte de bens à volta do mundo, turismo de massas para pausas curtas de um estilo de vida acelerado e aviação militar. As mudanças na aviação têm, por isso, de ser parte de uma transformação global na nossa sociedade, envolvendo novos modos de vida, de trabalho, de produção e de consumo. É vital questionarmos a maneira como consumimos, negociamos e viajamos; quem tem o poder, quem detém e quem tem acesso aos meios de produção, finanças e tecnologia.”

Não diabolizemos a aviação. Ela é a forma mais rápida e segura de fazer chegar as pessoas e os bens onde necessário. Mas, questionamos a aceleração, a competição que leva a lógicas de crescimento económico, ambiental e socialmente insustentáveis. Muitas empresas de aviação, que sucumbem agora à pandemia, já tinham problemas antes da crise COVID-19, devido a um crescimento pouco sustentado, tão somente para manter quotas de mercado, motivadas por poucos investidores em aeronaves e sustentadas por muita força de trabalho precária.

Publicado por Ana Azevedo

Profissional da Aviação

<span>%d</span> bloggers like this: