“As fontes da conduta soviética” e a Guerra Fria

A diplomacia veio a ser preterida em favor do militarismo como fio condutor da política externa americana,

Prestando atenção à recente troca de “mimos” entre o recém-empossado Presidente Joe Biden e o líder russo Putin, que tende a eternizar-se no poder, parece-me justificar-se a minha persistência na análise do contexto em que teve início a Guerra Fria, há 75 anos.

Este é o meu terceiro artigo, aqui no Correio dos Açores, sobre o tema. No segundo, há uma semana, procurei exprimir a conclusão de que a política americana evoluíra, de isolacionista, para potência mundial intervencionista, no período entre as duas guerras mundiais. Tal evolução terá constituído uma mudança equivalente à da guerra da independência, como que uma segunda revolução americana. 

Essa mudança vem a ter na Doutrina Trumam a primeira posição estratégica sobre a Guerra Fria, assumida publicamente e com significado geopolítico. O Longo Telegrama, enviado em 1946 por George Kennan e publicado em 1947 na revista Foreign Affairs, como “As fontes da conduta soviética”, constituiu a base teórica para a Doutrina Truman

O discurso em que o Presidente Truman, em 1947, apresenta ao Congresso a sua estratégia política, reformula os termos e as propostas do autor do Longo Telegrama. Por outro lado, a publicação deste, sob a forma do artigo de Mr X – As fontes da conduta soviética, provocou reações contra a sua natureza de cruzada anticomunista, ao ponto de a reação do jornalista político Walter Lippmann vir a classificar as recomendações ali contidas como uma monstruosidade estratégica. Mesmo que essa classificação se traduzisse numa força de expressão argumentativa, o certo é que as apreciações de Lippmann conquistaram muitos apoiantes: a George Kennan, diplomata de carreira, chegaram com frequência acusações de subscrever posições anti diplomáticas, o que, no caso, era também um argumento carregado de veemência e de intencionalidade. 

Analisemos, então, o conteúdo de As fontes da conduta soviéticapara procurarmos perceber as razões do maniqueísmo de George Kennan, bem como a monstruosidade que os seus críticos, e designadamente Walter Lippmann, identificaram na estratégia ali recomendada, a qual, não será demais sublinhar, veio, no essencial, a ser seguida na aplicação da Doutrina Truman. Com efeito, tal como Lippmann receava, a diplomacia veio a ser preterida em favor do militarismo como fio condutor da política externa americana. George Kennan define as fontes da conduta soviética, conjugando o revanchismo do povo russo, representado por uma minoria revolucionária (o partido bolchevique), contra a exploração czarista de que fora alvo ao longo de séculos. 

A teoria marxista viera fornecer o enquadramento doutrinário para justificar a revolução e o seu triunfo na Rússia. Kennan resume a conjugação das teorias de Marx: qualquer sociedade tem como característica essencial e dominante a produção e a troca de bens materiais; o sistema capitalista de produção leva inevitavelmente à exploração da classe operária pelos detentores do capital e, por isso, sendo incapaz de desenvolver adequadamente os recursos e de distribuir justamente os bens produzidos pelo trabalho humano, contém a semente da sua própria destruição; sendo os detentores do capital incapazes de se adaptar às mudanças económicas, corrigindo o sistema, transformam o seu capitalismo em imperialismo e este provoca a guerra e a revolução, suscetível esta de transferir o poder dos capitalistas para a classe trabalhadora. Adiciona a reformulação das teses marxistas, elaborada por Lenine para justificar a vitória do socialismo, e, expropriado o capitalismo e organizada a produção socialista, a exportação da revolução vitoriosa para os restantes países do mundo, mediante a adesão ganha das classes oprimidas. Recorre aos exemplos da adesão coletiva ao entusiasmo e da sedução dos ideais, já identificados por Sócrates desde a antiguidade grega, e confirmados no império romano, cujo declínio e queda invoca para, identificando na revolução russa a falta de planeamento futuro, por um lado, e a divisão entre as classes operária e camponesa, por outro, prever idêntico processo, rumo ao fracasso do comunismo. 

O estabelecimento de uma ditadura do proletariado, segundo Kennan, ter-se-ia justificado pelas circunstâncias de, na altura da revolução, haver uma guerra civil e uma intervenção estrangeira na Rússia, e a sua continuidade, após a morte de Lenine, teria sido causada pela natureza dos seus sucessores, como Estaline, intransigentes e intolerantes. Assim, nada poderia ocorrer na sociedade fora do controlo do partido, nada poderia ser planeado ou decidido sem o aval da cúpula do partido comunista. 

Essa cúpula, o Kremlin, acredita Kennan em 1947, continua absorvida na tarefa de consolidar a revolução, passados trinta anos sobre o seu sucesso: esforçar-se por tornar absoluto o poder conquistado em 1917, e reiterar tantas vezes as razões da sua luta até ficar interiorizada a justeza das suas teses. Conseguida a total adesão aos princípios e ao modelo da revolução, anulados os resíduos de resistência interna, a obsessão do partido ter-se-ia voltado para a identificação e denúncia dos inimigos externos, manifestasse-se essa inimizade através da ação dos estados do mundo capitalista, ou através dos seus agentes atuantes na própria Rússia. 

A luta contra esses inimigos, externos ou agentes do exterior, justificou a criação de órgãos repressivos pesadíssimos, poderosos e implacáveis: corpos e equipamentos militares, órgãos policiais e polícia secreta, e o domínio absoluto do Estado soviético.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, de 4 de abril de 2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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