O peso do Kremlin, cúpula do poder soviético

No Kremlin, as decisões são discricionárias, mas assumidas por unanimidade, os desígnios são de longo prazo e a convicção da sua infalibilidade torna-os incontestáveis.

A queda, real e simbólica, do Muro de Berlim traduziu-se no desmoronamento do império soviético, incluindo a libertação dos países satélites, que se viraram para a Europa como sua parceria identitária, mas não desfez completamente as características repressivas que permaneceram no que era o núcleo duro desse império, a Rússia. Hoje, com a globalização, assistimos quase instantaneamente às notícias sobre o teatro da medição de forças do poder russo com o americano. Aqui, passo ao lado da influência chinesa, nesta fase. Os quatro anos da liderança de Donald Trump, com interpretações delirantes sobre a realidade política mundial, deram para deixar claro que não há parceiros inocentes nestes jogos de poder. Como lembrou recentemente o embaixador Seixas da Costa, tinha-se criado um lema histórico durante a Guerra Fria, que ilustra bem o papel da propaganda e o seu impacto na condução das relações internacionais: “não acreditem em nada que venha da União Soviética a menos que isso tenha sido desmentido pelo Kremlin” (a Rússia provavelmente criou uma versão simétrica também irónica quanto à propaganda da Casa Branca). No meu artigo anterior, o terceiro desta série, referi a importância atribuída, no Longo Telegrama de Kennan, ao Kremlin, cúpula do partido comunista em Moscovo, para a formação e a propaganda do poder.

Os excessos da atuação de tal órgão de supressão da liberdade de expressão teriam, porém, originado dois efeitos não pretendidos ou não previstos: por um lado as estruturas repressivas criaram mecanismos de autoproteção e preservação, no sentido de se mostrarem indispensáveis e mesmo de tornarem imprescindível a sua proliferação; por outro lado, começaram a surgir focos de resistência clandestina, mas organizada, perante os intoleráveis abusos e atropelos, inflamando-se assim o potencial de oposição ao regime comunista, muito mais do que previsivelmente ocorreria no caso de não se instalarem tais mecanismos e aparatos policiais. Criara-se, em resumo, uma necessidade de ficcionar a normalidade e o bem-estar, idêntica às justificações para a propaganda inicial sobre os ideais e sobre os fundamentos teóricos e históricos do sucesso revolucionário.

Feito o diagnóstico da evolução do processo revolucionário russo, sua génese e seus primeiros trinta anos – da transformação do homem da Rússia czarista no homem novo revolucionário, ou catequizado pelos revolucionários socialistas; da adequação das estruturas do regime para corresponder às transformações da exploração capitalista em sociedade com o poder transferido para o proletariado, George Kennan não transmite, naturalmente, um balanço positivo. A sua descrição tem sempre como pressuposto que os fundamentos, e mesmo as intenções, dos revolucionários podiam ser genuínos, mas a tentação do poder e a sua preservação fizeram o seu trabalho, produziram os efeitos habituais, e instalaram o nepotismo e a perseguição, sem que a transformação dos processos de produção e de distribuição correspondesse às promessas programáticas e revolucionárias. Afinal, como expressamente identifica Kennan no seu Longo Telegrama em 1936, toda a atenção se dirigira para derrubar o poder, proceder à introdução do socialismo, canonizando-o como um outro poder, e não para a forma ou para o funcionamento futuro que assumiria esse socialismo instalado. 

Parte, então, George Kennan, para a análise da conduta atual do homem soviético, com o novo regime interiorizado, com a consciência aguda do antagonismo inato entre socialismo e capitalismo, e coletivamente acossado pelas ameaças dos regimes externos hostis e seus agentes no interior. Homem soviético que mantém, no seu regime, a confiança nos princípios iniciais da inadequação e inevitável queda do capitalismo e da missão dos proletários da pátria do socialismo de contribuírem para a luta internacional de libertação dos operários e camponeses ainda dominados pelos detentores do capital.  E quem é esse novo homem soviético? Pode ser considerado um parceiro fiável, pode o povo socialista ser confiável nas relações internacionais?

Conclui que não: a transformação política implicou uma mudança social, alterações profundas no comportamento russo: não há qualquer perspetiva de a União Soviética lidar de boa fé, ou com confiança, com as democracias ocidentais – Moscovo há de sempre pressupor o antagonismo inconciliável entre os seus interesses e os do mundo capitalista. Que se cuidem os governantes desse mundo capitalista perante qualquer documento ou acordo assinado por representantes de Moscovo: só podem estar de má-fé! – são os alertas de George Kennan. Falta de franqueza, duplicidade, hostilidade, especifica Kennan, é o que há a esperar no futuro, mesmo quando algumas manobras táticas fizerem os mais ingénuos acreditar que os russos mudaram. Não mudam nada: são convicções entranhadas de desconfiança e de defesa dos seus interesses. Postulados e fundamentos da natureza do poder soviético. Não significa tal conclusão que se deva temer pela segurança do próprio regime capitalista: não é prioridade dos russos derrubar os governos onde ainda não foram libertados os trabalhadores da exploração capitalista – o internacionalismo proletário tem muita paciência. Porém, há uma causa de que Moscovo nunca se afasta, que é a do apoio e da promoção do poder soviético tal como definido pelo Kremlin. A canonização do poder tem efeitos idênticos aos eclesiásticos. No Kremlin, as decisões são discricionárias, mas assumidas por unanimidade, os desígnios são de longo prazo e a convicção da sua infalibilidade torna-os incontestáveis. Sem estar coagido pela pressa do tempo corrente, o Kremlin não hesita em recuar perante uma força superior, habituados que estão os russos às contrariedades das forças da natureza. A persistência dos desígnios e a crença no sentido missionário levam a lidar bem com manobras táticas e com esperas longas.

Identificadas esta circunstâncias, surge então a recomendação de George Kennan ao governo americano, uma das que Walter Lipmann considerou monstruosidades estratégicas anti diplomáticas: o principal elemento a nortear a atitude política dos Estados Unidos para com a União Soviética deve ser a firme determinação de, a longo prazo, conter as ambições expansionistas de Moscovo. Esta recomendação é complementada com um conselho sobre a atitude dos interlocutores por parte dos países que negoceiem com os russos: manter sempre a calma e a tranquilidade e deixar sempre também algum espaço, nas exigências negociais, que permita aos representantes soviéticos aquiescer, transigir ou recuar sem perda significativa do prestígio russo.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, em 11 de abril de 2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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