O Longo telegrama visto do outro lado

É curioso notar a semelhança de alguns pontos da análise do Longo Telegrama de Kennan com as propostas de Churchill.

A divisão da Europa pela Cortina de Ferro, segundo a visão de Winston Churchill

No artigo anterior, referi-me à visão do outro lado, da Rússia, relativamente ao contexto relatado por George Kennan no seu Longo Telegrama, enviado em 1946 de Moscovo para Washington. Invoquei o artigo de Zhdanov. E podia focar-me na leitura de Churchill.

Andrei Zhdanov considera que a política internacional do pós- II Guerra Mundial foi caracterizada pela divisão das forças políticas em dois grandes campos: de um lado o campo imperialista e antidemocrático, liderado pelos EUA, tendo como aliados a Grã-Bretanha e a França, e, do outro lado, o campo anti-imperialista e democrático, formado pela URSS, pelas novas democracias e pelos países que haviam rompido com o campo imperialista e se afirmavam no rumo do desenvolvimento democrático. O campo dos Estados Unidos tinha como visão estratégica combater o socialismo e a democracia. A política externa soviética pressupunha a coexistência entre os dois sistemas, capitalismo e socialismo, sendo, portanto, possível a cooperação entre os dois campos, desde que prevalecesse a reciprocidade e a boa-fé. Ora, diz Andrei Zhdanov, todos sabem que a URSS honra os acordos que assume, mas os EUA procuram abandonar os seus compromissos, violam os direitos e desrespeitam os interesses das nações democráticas, pretendendo isolar a URSS. A política antidemocrática americana traduz-se numa luta ideológica que pretende convencer o mundo de que é a União Soviética que tem intensões agressivas e que resta ao bloco anglo-saxónico apenas desempenhar um papel defensivo.

Da Grã-Bretanha, Winston Churchill, então na oposição, voltava a classificar como uma “cortina de ferro”, fechada “desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático”, para caracterizar o expansionismo soviético que instalara governos pró-comunistas nos limites da sua zona de influência, ou seja, nos países da Europa de leste. Para enfrentar esta ameaça, propunha uma aliança entre os EUA e a Commonwealth britânica. É curioso notar a semelhança de alguns pontos da análise do Longo Telegramade Kennan com as propostas de Churchill: ambos entendiam que a Rússia não queria vir a recorrer à guerra, mas recorria à sua ameaça para fazer expandir o seu poder e a sua doutrina. Para Churchill, só uma ação firme de prevenção e o fomento da liberdade e da democracia em todos os países fariam frente às dificuldades e aos perigos da influência soviética; Kennan afirmava a sua convicção de que Estaline não podia assegurar a reconstrução da URSS e, ao mesmo tempo, arriscar um confronto com os EUA; logo, recuaria, se esse confronto fosse colocado como uma hipótese a considerar. Por outro lado, argumentava Churchill, nunca a posição de força voltaria a ser tão favorável ao Ocidente como nessa altura em que se alinhavam as alianças para o que viria a ser a guerra fria entre os dois blocos. Logo, urgia a determinação em apresentar posições para condicionar o adversário, antes que a vantagem do lado democrático começasse a perder-se. Contrariamente aos apelos de Churchill, os Estados Unidos dispuseram-se a substituir os ingleses no apoio à Grécia e à Turquia, mas não existiam condições para um consenso nacional na América para fazer alianças estratégicas. Sujeitos a críticas internas muito fortes e consistentes sobre a política de contenção, os governantes dos EUA perceberam que teriam que enfrentar o expansionismo soviético, recorrendo à sua condição de única potência comparável isoladamente à URSS, invocando os valores morais da democracia americana, com expressão universal, a sua pujança de desenvolvimento económico e tecnológico, ou seja, Harry Truman teria de optar pela firmeza de princípios e fazer a resistência ao comunismo em nome deles. Curiosamente, tratava-se de uma luta simultaneamente solitária e solidária, teriam que ser os Estados Unidos, como nação singularmente poderosa e dotada de meios, a representar o mundo livre para rechaçar os avanços do socialismo soviético. O apoio do Congresso para a ajuda à Grécia e à Turquia foi, assim, obtido por Truman, enunciando a doutrina que veio a ficar na História com o seu nome e invocando a necessidade desse programa como parte de uma luta mais vasta entre duas visões antagónicas da organização política da sociedade, duas conceções da própria vida. A luta entre a democracia e a ditadura fariam parte da Doutrina Truman para defender o modelo social baseado na vontade da maioria, expressa em instituições livres, em governos representativos, com garantia de eleições, com respeito pelas liberdades individuais, de expressão, de religião e de opção política. Consequentemente, a Doutrina Truman implicava combater o modelo baseado na imposição pela força da vontade de minorias com recurso à opressão, ao medo, ao controlo da informação e à manipulação eleitoral e à supressão das liberdades individuais. Com este programa sancionado pelo Congresso e pela opinião pública, o Governo dos EUA assumia-se como representante dos valores democráticos no Mundo e defensor da liberdade e da independência de todos os países, em nome dos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas. Como se compreende facilmente, o apoio a esta missão não podia ser unânime. Desde a acusação de a América estar a envolver-se na defesa de países com duvidosos valores morais, ou com discutível interesse para a segurança dos EUA, às dúvidas sobre a ambiguidade das opções e à resistência a este espírito de cruzada, o programa político do Presidente Truman teve que navegar entre debates desafiantes sobre os objetivos americanos, em todas as crises em que a sua política externa optou por intervir. Já aqui referi a discordância manifestada por um grupo representado por Walter Lippmann, jornalista político prestigiado, autor do livro Opinião Pública, publicado em 1922 e ainda hoje referido como obra fundamental do jornalismo. Lippmann encabeçava, pois, os argumentos contra a visão paradoxalmente anti diplomática de George Kennan, acreditando ser mais acertado tolerar uma esfera de influência soviética na Europa. Na análise de Lippmann, não fazia sentido a previsão apocalíptica de Kennan, segundo a qual as sementes da decadência do comunismo já corroíam o sistema soviético e ditariam o seu próprio fim. Coincidindo em alguns pontos com as propostas de Churchill, Lippman entendia que a prática diplomática era mais adequada do que a contenção, enquanto a América estivesse, como estava, em vantagem.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, em 02-05-2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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