Sobre a Guerra Fria: algumas conclusões

A “contenção” consubstanciada na teoria Truman traduziu-se também numa política que teve a sua construção e a sua condução sempre condicionadas pela incerteza dos resultados e pela crítica de alguns líderes da opinião pública.

Aterragem em 1948, durante o bloqueio de Berlim, de um “Skymaster” no aeroporto Tempelhof, que viria a ser desativado em 2008

É nas grandes encruzilhadas que o papel desempenhado por gestos, afirmações ou rasgos individuais deixa mais marcas na História das sociedades. É o caso, na América, das características pessoais de George Kennan, e do contraste entre a política externa do Presidente Truman e a de Roosevelt: este depositara grande confiança na moderação de Estaline, mas a Doutrina Truman recorreu à contenção como uma estratégia operacional com o objetivo de contrariar o espírito expansionista soviético. A força dominadora de personagens com a visão prospetiva de Churchill (ou com o magnetismo sinistro, porque brutal e grotesco, de Estaline), deixariam também marcas na condução do mundo político, em especial num mundo com um equilíbrio tão precário como o que sucedeu à tragédia da II Guerra Mundial. “No seu conjunto, desde 1940 que a política externa britânica mais não tem sido do que acrescentos de Churchill. Os britânicos ainda vivem as consequências das suas opções estratégicas entre a América e a Europa. A maioria dos nossos atuais dilemas já tinha sido antecipada nos seus discursos.”, escreveria Timothy Garton Ash.

A “contenção consubstanciada na teoria Truman traduziu-se também numa política que teve a sua construção e a sua condução sempre condicionadas pela incerteza dos resultados e pela crítica de alguns líderes da opinião pública. Foi num período histórico cheio de contrastes entre dois mundos em crescente rivalidade que esta doutrina deu início e fundamento teórico à Guerra Fria, em que a apreciação das motivações soviéticas e o exacerbar dos valores americanos sempre estiveram em confronto de representação, como num palco com o mundo como espectador. De certo modo, foi também um confronto de representação, entre as possibilidades da diplomacia para ultrapassar as tensões internacionais e a aposta na pressão de que a “contenção” da Doutrina Truman é um bom exemplo, tal como veio a ser a sua evolução, ainda no contexto da Guerra Fria, mas com os presidentes posteriores a Harry Truman, oscilando entre as fases de “confrontação” e de “coexistência pacífica”.

A renúncia à guerra como instrumento político é um objetivo proclamado de há muito, mas desde há muito também falhado, ou posto temporariamente de lado, na convicção de que uma arma carregada é mais eficaz do que uma invocação do Direito. As guerras nascem também das tentativas de paz e, tal como veio a escrever Kenneth Waltz em 2004, “Nunca houve carência de planos para a paz mundial.”; “Sustenta-se amplamente que aumentar a compreensão entre os povos significa incrementar a paz.”; “Mas como podemos planear a invenção social que torne a guerra obsoleta? (….) Temos de aprender o que pudermos de todos os lugares possíveis.”

Parece ser uma missão impossível conciliar os esforços de paz mundial com os interesses dos Estados, em particular os das potências com protagonismo relevante na definição da ordem mundial, por estar em causa a afirmação e a preservação do seu próprio poder. Segundo Nicholas Spykman, “o poder significa sobrevivência, aptidão para impor aos demais a própria vontade, capacidade de ditar a lei aos que carecem de força, e possibilidade de arrancar concessões aos mais débeis” e “o homem de Estado, que conduz a política externa, só pode ter em conta os valores da justiça, equidade e tolerância na medida em que contribuem para o objetivo do poder, ou se, entretanto, não interferirem nele. Pode utilizá-los como instrumentos, que do ponto de vista moral justifiquem a aspiração do poder, mas deve rejeitá-los no momento em que a sua aplicação se traduza em debilidade. Não se procura o poder para alcançar valores morais, mas utilizam-se os valores morais para facilitar o acesso ao poder.”

De acordo com Eric Hobsbawn (2002), “O poder na União Soviética era tudo o que os bolcheviques haviam ganho com a Revolução de Outubro. O poder era o único instrumento que eles podiam brandir para mudar a sociedade.” (…) “Só a determinação de usar consistente e implacavelmente o poder para eliminar todos os obstáculos possíveis ao processo podia assegurar o eventual sucesso”. Segundo este historiador, Estaline entedia que a luta de classes se tornaria mais intensa com o decorrer do tempo, depois da tomada de poder pelo proletariado.

Como afirma Kissinger no último capítulo do seu livro Diplomacia, de 1996, “a América foi atirada para a Guerra Fria pela ameaça do expansionismo soviético e baseou muitas das suas espectativas no pós-guerra fria no desaparecimento da ameaça comunista.  Tal como as atitudes em relação à hostilidade soviética moldaram as atitudes da América, em relação à ordem global – na perspetiva da contenção -, também os esforços de reforma por parte da Rússia dominaram o pensamento americano sobre a ordem mundial do pós-guerra fria.” Escreveu ainda Kissinger que “A América será a maior e mais poderosa nação, mas uma nação com parceiros, o primus inter pares, mas, mesmo assim, uma nação como as outras. O excepcionalismo americano, que é a base indispensável da política externa wilsoniana, será, por isso, provavelmente, menos relevante no próximo século.”

Ainda que o enfoque do presente texto pretendesse ser sobre a doutrina do Presidente Harry Truman, o início da Guerra Fria, seus fundamentos e críticas, ocorre agora registar como curiosidade que a política do Presidente Wilson é invocada tanto num dos primeiros como num dos últimos parágrafos desta reflexão. Significa isto, naturalmente, que não há épocas nem contextos históricos isolados, o mundo é feito de interligações e interdependências, equilíbrios e negociações, mas significa também que temos registados no nosso subconsciente os valores coletivos invocados há quase um século por Woodrow Wilson: interligação entre paz e democracia; obrigações éticas dos Estados; interdependência do interesse nacional e do direito universal.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, na mesma data.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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