Fontes de informação são parte interessada

O Governo extinguirá o GaCS. (…) Colocará a análise, gestão e fiscalização das candidaturas aos apoios públicos à Comunicação Social, e subsequente financiamento, na competência de uma estrutura desgovernamentalizada.

Um dos filmes-base do cinema moderno, “Citizen Kane”, dirigido por Orson Welles em 1941, chamou-se cá “O Mundo a seus pés”

O destaque que inicia este artigo foi retirado da comunicação social que reproduziu os propósitos expressos no ano passado por responsáveis do atual Governo Regional. Não nos entusiasmemos muito: é natural, diria mesmo inevitável, que quem ascende ao poder executivo após vinte ou vinte e cinco anos de oposição, identifique situações resultantes da implantação tentacular das estruturas dos responsáveis anteriores. Aconteceu nos Açores em 1996 e em 2020. Acredito que acontecerá certamente, se a alternância ao atual executivo demorar mais de uma dúzia de anos a processar-se.

Influenciar o que é publicado nos jornais, ou difundido na rádio e na televisão, é uma grande tentação: afinal, a seleção dos acontecimentos mundiais para os transformar em notícias e com estas encher as páginas de um jornal ou o espaço informativo de uma estação emissora, é trabalho de pessoas com a profissão de jornalista, que se foram formando e fazendo evoluir a sua atividade através da adoção das melhores práticas e designadamente com a integração de reguladores tais como, para além dos membros da direção, os conselhos de redação dos órgãos, os editores e até aos revisores dos textos, incluindo nestes a seleção das imagens ilustrativas.

Terá a qualidade da nossa Democracia vindo a degradar-se, ao ponto de diminuir o pudor dos políticos por nós eleitos em tentar forçar o condicionamento da comunicação social? Há analistas e estudiosos ilustres que vêm fazendo essa leitura, mas eu prefiro apostar no otimismo de considerar que, no comportamento humano, sendo possível encontrar manifestações indignas, acabam por prevalecer os valores das boas práticas, cultivados pela nossa vivência coletiva.

Uma forma de tentar influenciar o que é selecionado pelos jornalistas, na sua qualidade de “gatekeepers”, para ser publicado, seria a criação de gabinetes de apoio, ou seja, a utilização de especialistas de comunicação, para servirem de facilitadores dos órgãos de informação na obtenção das notícias. Bem sabemos que os jornais privados vivem apertados de meios: quantas revisões de texto são “mal” feitas por falta ou exaustão dos revisores? – então, bem se percebe como é tentador beber a informação já produzida em outros órgãos, quer pela cópia mimética do publicado na concorrência, quer pelo recurso aos textos preparados nos gabinetes de “apoio” à comunicação social, sejam eles os das Agências Noticiosas, ou os ligados de algum modo ao poder político.

A fronteira entre apoiar a comunicação social, que tem reais carências, e procurar influenciar o conteúdo das edições, é muito fluida. Da navegação em tais águas até as tornar menos transparentes vão poucos balanços de remos e, havendo alguma nebulosidade na relação entre regulador e regulado, não é difícil começarem a detetar-se sinais de tentações censórias. Ainda que, como titula o Provedor do Leitor do diário Público, José Manuel Barata-Feyo, em artigo recente a propósito da “Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital”, possa invocar-se a existência de “a censura má e a censura boa”! – má, foi, por exemplo, a instituída pela ditadura do Estado Novo a partir de 1933; “boa”, seria a que os poderes legislativo, executivo e representativo, que elegemos recentemente, procuram agora defender através da Lei 27/2021.

Havemos certamente de voltar a este tema, digamos, genérico, da relação entre a legislação, designadamente a intenção dos legisladores, e as consequências da sua interpretação e aplicação prática pelos órgãos de informação e seus fazedores. Foquemo-nos, por agora, no papel que cabe aos jornalistas desempenhar, na seleção dos factos para serem tratados para publicação como notícias, de escolher entre as suas fontes de informação. Um GaCS ou os serviços de imprensa deste ou de outro poder executivo serão de confiar para, por si sós, servirem de fonte de informação? As fontes oficiais ou oficiosas, ou seja, os gabinetes ou portais de informação, raramente serão participantes desinteressados na relação com os jornalistas. Estes sempre terão que estar de “antenas no ar” para desconfiar da versão transmitida: é chato dizer isto, mas só assim é que se escrutinam os poderes. Às fontes documentais, tais como os dados de um Instituto de Estatística ou, de um Pordata, com esta ou outras designações, pouco mais faltará do que o cuidado em saber selecionar e interpretar o que se pretende transmitir aos leitores ou ouvintes. Com as chamadas fontes humanas, porém, toda a cautela é devida: raramente é dispensável recorrer ao cruzamento das versões, à investigação dos jornalistas para se aproximarem da verdade dos factos. Sim, uma das boas práticas da profissão diz respeito ao cruzamento das versões das diversas fontes, a fim de concluir pela veracidade e pela exatidão dos factos relatados. E aí é que bate o ponto: como fazê-lo com a escassez meios disponíveis e com a pressão do tempo, a esgotar-se com a hora de fecho da edição a pressionar?

Será então por essas contingências que a imprensa não foge de pronto dos GaCS, Gabinetes ou Portais de Informação dos Governos. É verdade que, nestes, as coisas serão disponibilizadas quase prontas, mas serão com certeza uma versão de parte interessada. Os arquivos e a experiência dos jornalistas têm que lhes permitir um cruzamento imediato e uma opção por investigar mais, até atingir a configuração noticiosa que condiga razoavelmente com a verdade e a exatidão. A exigência, na profissão de quem faz sair os jornais ou emitir as estações de radio e tv, é permanente e intensa. O poder político bem pode ter prometido, em dezembro passado, “extinguir o GaCS” e “colocar a análise, a gestão e a fiscalização das candidaturas aos apoios públicos à comunicação social, e subsequente financiamento, na competência de uma estrutura desgovernamentalizada”: a tentação de, tal como em anteriores Executivos que por lá ficaram demasiado tempo, deixar estender uma rede tentacular de condicionamento, será quase sempre irresistível. Daí que, com os limites de meios com que vivem os órgãos de informação, tenham os jornalistas que recorrer às fontes alternativas constituídas pelo material dos próprios Arquivos, pelas Agências Noticiosas e pelos restantes Média, tanto para cruzamento das versões como para partilha das boas práticas, o que, de caminho, até se traduz num interessante processo de formação contínua, do tipo do conceito internacionalizado como “on-the-job training”.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores, em 13.06.2021

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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