Jornalismo “lowcost”

Os jornais procuram e empolam «estórias» sensacionais para aumentar as vendas.

O telégrafo para troca de informações constituiu uma revolução equivalente, no final do século XIX, à adoção, passado outro século, do atual e-mail. Portugal foi dos pioneiros, com a instalação do primeiro cabo submarino entre Carcavelos e a Horta em 1893.

Em artigos anteriores sobre este tema do jornalismo, referi-me à influência que a revolução liberal, iniciada em 1820 no Porto e firmada em Lisboa, provocou desde logo na liberdade de imprensa. Como se sabe, o iluminismo, no século XVIII, e designadamente as revoluções americana e francesa, permitiram que os contextos de absolutismo monárquico fossem evoluindo para regimes constitucionais e liberais e se consensualizasse uma Declaração dos Direitos do Homem, entre os quais me permiti destacar agora a liberdade de pensamento, que contém a de expressão e esta a de imprensa. Foi nesse enquadramento que, em 1835, surgiu o Açoriano Oriental e, três décadas depois, o Diário de Notícias e o Diário dos Açores, para mencionar apenas os três periódicos portugueses mais antigos e ainda em circulação nos nossos dias.

Sendo certo que foi o liberalismo a permitir a onda de desenvolvimento da imprensa em Portugal, parece-me importante salientar a corrente internacional em que se refletia. Na sequência de ter sido posto um fim à Inquisição, surgiu um número de jornais tão elevado que foi então classificado como “contágio periodiqueiro”, pelo frade José Agostinho Macedo, crítico das liberdades permitidas. Invoquei um estudo de José Andrade para lembrar que, nos Açores, surgiram, nesse século, uns quinhentos jornais.

A liberdade afirmada no Portugal de então, ainda que com altos e baixos na produção legislativa aplicável, permitiu que os empresários e os profissionais interessados na produção de informação procurassem seguir a onda que começara nos Estados Unidos com a chamada Penny Press, que rapidamente se estenderia à Europa. A imprensa americana passara a ser dominada por jornais tabloides, de baixo preço, em que contava mais a publicidade inserida, que pagava os custos da edição com tanto mais margem de lucro, quanto maior fosse a tiragem. Era o jornalismo moderno a afirmar-se, como informação noticiosa, incluindo também linguagem emotiva, próximo do que veio a ser a imprensa generalista contemporânea. Os jornalistas, a partir de então, vão-se afirmando para além do papel de selecionadores (gatekeepers) das notícias, de entre os acontecimentos do Mundo, para no-las transmitir, através do enchimento quotidiano das páginas do jornal, expondo a informação no modelo da pirâmide invertida, para, em conjunto com a publicidade, contribuir para o sucesso do negócio que a indústria da informação também era e é. As designações penny press ou penny paper não tiveram tradução predominante para outras línguas, transitaram assim mesmo para a linguagem internacional: em português foi ocasionalmente chamado jornalismo de centavo ou de tostão, este último termo aplicado mais no Brasil para jornais como o Estado de São Paulo, fundado em 1875. Foi na segunda metade do século XIX, portanto, que teve início o jornalismo moderno: a necessidade, a procura e a oferta da informação quotidiana; a linguagem clara, concisa e isenta; o culto dos factos. Em suma, o jornalismo popular, noticioso, generalista, suficientemente profundo, sério, rigoroso e elaborado para agradar transversalmente aos diversos estratos sociais.

Como viria, em 2004, a escrever Mário Mesquita, que fora diretor do Diário de Notícias nas décadas de 1980 e 1990, os jornais procuram e empolam “estórias” sensacionais para aumentar as vendas.

Há, porém, alguns factos objetivos a condicionar a ideia, algo ilusória, de que a população em geral começou a ler muito os jornais que se multiplicaram nesse contexto da penny press: no Portugal de 1890, segundo um estudo da Universidade do Porto, 76% da população com mais de 7 anos, não sabia ler nem escrever. Um século depois, o Censo de 1991 apurou que se tinha verificado uma evolução muito significativa na capacidade de leitura dos cidadãos: a percentagem de analfabetos tinha tido uma redução notável, situando-se então em 12,7%. Na Europa mais desenvolvida, e designadamente nos países de língua inglesa, a evolução fora mais acelerada: a taxa de analfabetismo, também elevada na década de 1830, evoluiria, até à transição para o século XX, para próximo de zero. Permitam-me lembrar que, há perto de um ano, no filme Notícias do Mundo, dirigido por Paul Greengrass, com Tom Hanks como principal ator, a ação se situa na América em 1870: no decorrer da história, apercebemo-nos de que a ocupação do protagonista é ler jornais para um público de analfabetos, sequiosos de notícias, que lhe retribuem o serviço contribuindo com gorjetas. A literacia universal é um conceito relativamente recente, afinal.

Outro tipo de literacia se pode atualmente identificar no jornalismo: a integração das diferentes gerações de jornalistas, e dos seus leitores, nas inovações trazidas pelas tecnologias de informação e comunicação e, bem assim, no suporte da imprensa para leitura – o jornal físico ou a sua reprodução virtual. Trata-se de um processo complexo, já que se desdobra em adesão por adaptação ou por escolha. Os jornais on-line, tal como os e-books, ocuparão certamente grande parte do futuro da satisfação da nossa necessidade de informação e terão, já têm até, vantagens na flexibilidade, na portabilidade e no preço. Haverá por longo tempo muitos para quem o papel físico e as suas envolventes culturais terão ainda um grande significado e implicarão uma preferência, até baseada num certo romantismo, ou no apego à tradição, sendo certo que o sistema virtual, podendo não agradar, não causa prejuízos ou incómodos diretos aos leitores menos aderentes, ou mais conservadores.

As expetativas, qualquer que seja o suporte, situam-se no rigor da informação, na clareza da linguagem, no culto dos factos e na isenção dos jornalistas.

Um jornalismo acessível, simultaneamente elaborado e diversificado, será conjugável com um modelo de negócio sustentável, para além de corresponder à componente de serviço público exigível? – é a luta diária de todos os órgãos de informação: difícil é o sucesso, ou, em muitos casos, mesmo a sobrevivência, dos modelos em contante contradição entre o dever de representar o cidadão, facultando-lhe informação fiável, mas também vendável. O compromisso das técnicas, para difusão do produto informação, com as estratégias de marketing empresarial em que está inserido, para chegar ao público mais vasto possível. A lealdade a competir com a capacidade de cativar novas camadas da população no mundo concorrencial da produção mediática.

Como diagnosticam alguns investigadores, atualmente há uma grande interligação nos diversos domínios de comunicação, verificam-se curiosos fenómenos de mimetismo e de reprodução de modelos e linguagens. O “contágio” da comunicação em círculo!

Artigo publicado pelo autor no jornal “Correio do Açores” em 04.07.2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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