50, ou 82, ou 102 anos de aviação na Horta

A partir da Horta iniciaram-se, em 1939, ligações regulares entre os Açores e os dois lados do Atlântico.

Fiz, no final de um artigo anterior, referência à celebração dos 50 anos da inauguração do aeroporto da Horta, que ocorrera em 24 de agosto de 1971, e ao destaque dado ao evento pelo semanário Tribuna das Ilhas que publicou um dossier sobre o tema na sua edição do passado 21 de agosto. Naturalmente que foi um acontecimento, a abertura do aeroporto: até então, por cá, só podiam aterrar aviões em Santa Maria, em São Miguel e na Terceira. Tenhamos presente, contudo, que o aeroporto da Nordela só abrira dois anos antes, em 1969. A pista de relva do “aerovacas” de Santana é que tinha servido São Miguel desde que a SATA iniciara as suas operações, em 1947, entre São Miguel, Santa Maria e Terceira. Já no aeroporto das Lajes, neste caso, pois tinha havido voos militares entre os aeródromos de Santana e da Achada antes disso, designadamente em 1942, quando, decidida já a instalação de duas bases para as aeronaves militares portuguesas, uma em Santana e outra nas Lajes, ainda os ingleses da Royal Air Force ajudavam na conclusão das obras nos terrenos expropriados nas, então, Lagens.

Olhando para a realidade mais próxima da açoriana, a madeirense, constata-se que aquele arquipélago só teve um primeiro aeroporto, o de Porto Santo, em 1960. Quatro anos depois abriu, com as limitações de então, o de Santa Catarina, na Madeira. Como é que viajavam os madeirenses, antes? Custa a crer, visto da atualidade, mas a verdade é que as ligações aéreas regulares da altura foram as que a TAP assegurava entre Lisboa e Porto Santo, tendo os passageiros que fazer ainda quatro horas de barco, entre as duas ilhas. Não consta que tenha havido uma linha aérea regular com hidroaviões idêntica à estabelecida pela PanAm em 1939-45 com escala na Horta. Permito-me insistir: a aviação civil portuguesa esteve pelo menos uma dezena de anos atrás da europeia mais desenvolvida: a SATA só seria fundada em 1941, começando a voar seis anos depois, enquanto a TAP começaria em 1946. As experiências anteriores foram fugazes.

Voltando a focar-me no tema da Horta: longe de mim desvalorizar a importância da abertura da pista terrestre em 1971.

O DC-3 Dakota foi a primeira aeronave a testar a pista da Horta: o da DGAC, em abril e um da SATA, em maio, de 1971
 

Pretendo mesmo é destacar a circunstância de ter sido a partir da Horta que se iniciaram, em 1939, ligações regulares entre os Açores e os dois lados do Atlântico, quando os Clippers da Pan American utilizaram aquela baía para fazerem escala entre Port Washington, New York, via Bermuda, e Lisboa, a caminho de Marseille e Southampton. A verdade é que já na altura em que foi discutida a hipótese de ser construído um aeroporto numa das ilhas dos Açores para ser uma alternante terrestre à instabilidade do oceano, que permitisse evitar uma eventual repetição de tragédias como a da Graciosa, quando o Amiot 123 polaco, pretendendo cruzar o Atlântico Norte, ali se despenhou, ao tentar uma aterragem sem pista. Nessa altura, dizia eu, chegou a ser equacionada a construção de uma pista na Feteira, Faial. Até não ficava longe da atual, só que o financiamento então disponível, esse, sim, estava bem longe…

Estamos a falar de ligações aéreas, que naturalmente identificamos como carreiras com alguma regularidade e com meios civis. E esse tipo de transporte aéreo já se organizava logo a seguir à Grande Guerra de 1914-18. A KLM, fundada em 1919, ainda está a voar pelo Mundo para o comprovar.

Hidroavião da PanAm nos céus do Faial (PanAmerican Historical Foundation, foto de George Hitchcock)

Se quisermos lembrar aniversários relativos ao papel da Horta na aviação internacional, é só atentarmos no centenário, de resto comemorado há dois anos, da inauguração da sua baía pelo Curtiss NC-4 “Liberty”, que ali chegou, concluindo o primeiro lanço da travessia organizada pela US Navy, desde Trepassey Bay, Terra Nova, até Lisboa, com escala nos Açores. Navegação à vista, orientada por destroyers da US Navy, mas fez-se!

1919: NC-4 a abastecer no porto da Horta. Tripulação: comandante A Read, pilotos E Stone e W Hinton, técnicos de manutenção J Breese e E Rhodes, e rádio operador H Rodd
 

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores em 12.09.2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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