Campos de aviação e outras necessidades básicas

Ao mesmo tempo que se discutiam as facilidades para a aviação, havia ainda muitas carências, desde logo as relacionadas com os cuidados básicos de saúde, nas nossas ilhas.

Um dos Clippers da Pan American World Airways na Horta nos anos 1939-45, enquanto decorria a II Guerra Mundial

O aeroporto da Portela foi inaugurado por um avião DC-3 Dakota, em 1942. Antes, Lisboa significava, para a aviação terrestre, a pista da base de Alverca. O terminal de Cabo Ruivo e a doca do Bom Sucesso, no Tejo, serviram os hidroaviões. Lisboa já era um destino importante para a aviação, o que facilmente se compreende, dada a sua localização como capital mais ocidental da Europa, mas não ainda para aviões portugueses, com atividade quase inexistente ou irrelevante. Companhias internacionais como as europeias Air France, BOAC, IBERIA e SAS, ou as americanas Pan American e TWA é que o exploravam nos primeiros cinco anos, até a TAP se lançar nas suas operações, utilizando inicialmente ainda DC-3 Dakota. Permita-se-me registar, a propósito, que, relativamente aos voos da PanAm, a sua carreira de New York até Lisboa foi, até 1945, via baía da Horta, utilizando então os hidroaviões Clipper, que dispunham do terminal de Cabo Ruivo para deixar e embarcar passageiros e carga.

Foi só em 1959 que começaram as obras do primeiro aeroporto na Madeira, o de Porto Santo, inaugurado no ano seguinte. Mesmo assim, os passageiros com origem ou destino na própria ilha da Madeira ainda tinham que fazer uma viagem de quatro horas de barco, situação que durou quatro anos, até ser concluída uma pista no Funchal, a de Santa Catarina. Em Porto Santo, a eletricidade, bem como uma rede de água potável distribuída ao domicílio, só tinham chegado em 1954: até então a iluminação era feita com candeeiros de petróleo. A primeira ligação telefónica entre as duas ilhas só seria estabelecida mesmo no início das obras para construção da pista, em 1959.

Menciono estes elementos para relativizar as nossas rivalidades, expressas designadamente quanto à localização dos primeiros aeroportos e outros serviços públicos nas nossas nove ilhas. Ter uma pista corresponde também à existência de estruturas de apoio para casos da emergência e não haja dúvidas de que, ao mesmo tempo que se discutiam as facilidades nos Açores para a aviação emergente, havia ainda muitas carências, desde logo as relacionadas com os cuidados básicos de saúde, mas seguramente quanto a iluminação pública e à distribuição de água potável nas nossas ilhas, mesmo naquelas que foram logo beneficiadas com o desenvolvimento das facilidades relacionadas com a aviação. Que a baía da Horta fosse a escolha natural dos ases da aviação, nas décadas de 1920 e 1930, tem a óbvia explicação de o seu swell ser o mais acolhedor para as aeronaves ali poisarem e dali descolarem. Na Horta, foram escalando, nos seus ensaios transatlânticos, vedetas como Frank Courtney, Francesco de Pinedo, Italo Balbo e Ramon Franco ou experiências como a do gigantesco DOX e as dos aviões alemães catapultados, até à, mais consistente e prolongada, dos Clippers. Foi Charles Lindbergh quem certificou a Horta para ser baía de escala da Pan American.

A maioria, se não todos, dos protagonistas então envolvidos acreditava na grande probabilidade de vir a aviação naval a prevalecer, no futuro, sobre a terrestre.

Só que havia outras ondas, com outros tipos de atração, desde logo a do poder político-militar, a começar pelo instalado em … Ponta Delgada. Quando a República, no decorrer da Grande Guerra, tomou a decisão de abrir uma base naval nos Açores em 1917, foi enviado, para a instalar, o tenente Adolfo Trindade, com a sua equipa, para a Horta, até tomar-se consciência de que o departamento da US Marine Corps que os EUA tinham resolvido instalar nestas ilhas para ser organizada a vigilância e defesa marítima era comandado pelo almirante Herbert Dunn, que foi colocado em Ponta Delgada. Então, o Estado Português nomeou um militar português com graduação equivalente à de Dunn, o general Simas Machado, como Alto-Comissário da República e o destacamento do tenente Trindade lá teve que se deslocar do Faial para São Miguel. Vejamos o lado positivo: o facto de o responsável americano ser alguém com a classe de Herbert Dunn resultou muito favorável para as populações locais, uma vez que ele conseguiu que fossem feitos investimentos e disponibilizados recursos por parte dos Estados Unidos, que contribuíram para melhorar significativamente a qualidade de vida em São Miguel, desde logo ao nível da saúde básica. A Horta, que afinal só dista trezentos e cinquenta quilómetros de Ponta Delgada, não foi o alvo imediato destes benefícios. Tinha tido outros, como os resultantes da instalação dos cabos submarinos. E iria ter os relacionados com o cosmopolitismo da escala dos Clippers da PanAm na sua baía.

Quando, apesar da crença generalizada de ser a aviação naval a prevalecer sobre a terrestre, começam as diligências para haver uma pista terrestre numa das ilhas, como complemento à instabilidade do mar para “amaragem”, surge também a hipótese de ser a Feteira o local escolhido, bem perto da que, em Castelo Branco, viria a ser inaugurada mais de quarenta anos depois, em 1971. Também a Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada e a Câmara Municipal de Vila do Porto se mostraram interessadas em ter essa pista em São Miguel e Santa Maria, respetivamente. A razão por que ela foi contruída primeiro na Terceira foi tão simples como isto: a Junta Geral de Angra do Heroísmo dispôs-se a utilizar os terrenos da Achada e a efetuar, à sua própria custa, as obras para os transformar numa pista. Já era Salazar quem controlava as finanças do país!

Para credibilizar o projeto, foi decisivo o facto de os respetivos terrenos serem baldios, sem necessidade de expropriação, e jogou também a seu favor a informação de ter já havido, em 1918,uma proposta do major da Royal Navy Maurice Buckland para construção de uma pista de aviação na mesma zona e, uma década depois, a concordância de algumas personalidades influentes no meio aeronáutico, como o major José Agostinho na Terceira e o coronel Cifka Duarte em Lisboa.

O Avro “Açor” no Campo da Achada, em 1929, para, pilotado pelo capitão Frederico Melo, inaugurar a primeira pista dos Açores

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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