O começo do fim da era imperial

O direito à autodeterminação dos povos foi proclamado na Carta de São Francisco, no processo de fundação da ONU, em 1945. Fora combinado por Churchill e Roosevelt um ano antes, como condição dos EUA para entrarem na II Guerra Mundial, o que seria essencial para tornar possível a vitória dos Aliados.

Logotipo da Magnum, fundada em 1947.

Afigurou-se promissor que, dois anos depois de restabelecida a paz no Mundo, surgisse uma Revista como a Magnum. Para além de ser um órgão de informação que inovava a explorar o visual, a Magnum era, como sintetizou Cartier-Bresson, um dos seus fundadores, “uma comunidade do pensamento, uma qualidade humana partilhada, a curiosidade sobre o que acontece no mundo, o respeito pelo que se passa e o desejo de o transcrever visualmente.”

Uma carga idêntica em simbolismo encorajador foi a de ser conseguida a possibilidade de a independência da Índia acontecer nesse mesmo ano de 1947. Os conteúdos de uma Revista como a Magnum, terão contribuído para amplificar decisivamente o significado do movimento descolonizador. A libertação da Índia constituiu um passo muito significativo, atenta a sua dimensão e por se tratar do grande império britânico. Mohandas Ghandi foi reconhecido universalmente como um símbolo eloquente dos Movimentos para a descolonização. Mas foi assassinado em 1948.

1947 – Lord Mountbatten, último vice-rei da Índia, com a sua mulher e Ghandi.
 

Tenho-me situado no período que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial, focado no desenvolvimento que o fim das hostilidades globais permitiu desencadear, no processo de descolonização que as conversações relacionadas com o processo de paz aceleraram e, claro, também nos quarenta anos da Guerra Fria iniciada três anos depois de conseguida a paz de 1945.

O direito à autodeterminação dos povos foi proclamado na Carta de São Francisco, no processo de fundação da ONU, em 1945. Fora combinado por Churchill e Roosevelt um ano antes, como condição dos EUA para entrarem na II Guerra Mundial, o que seria essencial para tornar possível a vitória dos Aliados.

Embora seja inevitável que os temas se cruzem, procuro em cada texto aqui no jornal, ao focar-me num assunto, explorar também alguma ligação que ele tenha com Portugal, e com os Açores mais particularmente, sempre que possível e razoável.

Durante cinco séculos, as potências europeias exploraram recursos em África e no Oriente. A II Guerra Mundial trouxe a possibilidade aos povos explorados de descobrir e explorar as suas próprias forças, designadamente para negociarem com as potências europeias a sua participação no conflito. Portugal sempre foi um país pequeno e, particularmente no período do Estado Novo, só teria a ganhar se se cingisse às correntes políticas das grandes potências. Se é possível entender que em 1933, Salazar ainda tenha publicado, anexo à Constituição, o Ato Colonial e discursasse sobre a “unidade política e económica de Portugal e do seu Império”, já se transforma em idiossincrasia de ditador que tenha continuado, vinte anos depois, terminado o conflito mundial e iniciados os processos de descolonização, a utilizar formulações dos anos 1930: “tal como o Minho ou a Beira é, sob a autoridade única do Estado, Angola ou Moçambique ou a Índia.” Se, como veio a ser expresso em 1971 por Vitorino Magalhães Godinho, “os portugueses construíram no século XVI um Império comercial cuja alma eram as especiarias; a sua razão, a pirataria e o saque; os seus nervos, os canhões”, sempre se poderia contrapor que assim o fizeram os portugueses, tal como os espanhóis, os franceses, os holandeses, os belgas ou os ingleses. Estes últimos, que constituíram o maior império do Mundo, vieram, no século XX, a adaptar-se, digamos assim, à opção civilizacional de abrir portas ao direito dos povos à autodeterminação. A começar pela mítica Índia, em 1947. Mas, nem os 14 anos decorridos desde a independência da Índia até 1961, foram suficientes para preparar o Estado Novo para a inevitabilidade de Goa, Damão e Diu, o seu “Estado da Índia”, seguirem idêntico caminho.

Tornou-se, assim, inevitável que surgissem mais líderes da libertação como, na Angola de 1955, Mário de Andrade, a acusar a dominação português de praticar políticas de “feroz assimilação”, “destruição das culturas indígenas” e “reduzir as populações aos trabalhos forçados”. Ou Amílcar Cabral, na Guiné de 1960, a escrever que “colónia foi substituído por província ultramarina, permitindo assim a Portugal proclamar que não tinha colónias”. Amílcar Cabral, refutando a teoria da “assimilação”, denunciava como “deplorável subterfúgio”, o conceito de “unidade nacional”, integrador de Portugal e das colónias, “introduzido apressadamente na Constituição portuguesa para evitar as responsabilidades estabelecidas na Carta das Nações Unidas”.

Amílcar Cabral (1924-1973), além de conseguir unir mais de um milhão de guineenses pela causa da sua libertação da ocupação portuguesa, foi considerado um dos principais combatentes pela independência africana. Foi assassinado em 1973.

Artigo publicado pelo autor no jornal Correio dos Açores em 24.10.2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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