Décadas a brincar com o fogo

Washington propôs desde o primeiro momento que Portugal fosse convidado a aderir à NATO, embora isso o fizesse o único regime não democrático entre os fundadores da Organização.

Harry Truman, Presidente dos Estados Unidos (1945-1951).

Já mencionei algumas vezes o conteúdo da Doutrina Truman e aprecio particularmente os termos com que Eric Hobsbawm a resume em A era dos extremos (1994): – a política dos Estados Unidos deve ser apoiar os povos livres que resistam a tentativas de subjugação por minorias armadas ou por pressões exteriores.

A segunda Guerra Mundial fora tão destruidora que deixara os países vencedores, com os EUA à cabeça, atemorizados com a perspetiva de os seus efeitos sociais e económicos provocarem uma recessão com uma dimensão equivalente à que se seguira à primeira. Já referi algumas vezes nestes meus artigos sobre essa época que algumas correntes de pensamento, como exposto por E. H. Carr em “Vinte anos de crise 1919-1939”, entendem que se deve interpretar o período entre 1914 e 1945 como um só conflito mundial com um interregno na luta armada de duas décadas, mas com o ambiente social da Europa sempre a fermentar, designadamente no que diz respeito a uma grave crise económica.

Paul Samuelson, que em 1970 seria distinguido com o prémio Nobel de Economia, previu, em 1943, a possibilidade de os Estados Unidos enfrentarem o maior período de desemprego e descontrolo da produção industrial de sempre. Acrescia a previsão de instabilidade social, política e económica no Mundo, sabendo-se como os países haviam saído da guerra arruinados.

Ora, graças essencialmente à Doutrina Truman, e concretamente ao Plano Marshall que ela incorporava, foi possível introduzir com relativa rapidez uma política de recuperação e desenvolvimento nas economias americana e europeia. Esta Doutrina, porém, implicava a assunção, por parte dos Estados Unidos, de que a postura da União Soviética logo após a II Guerra Mundial era comprovadamente de organizar um bloqueio entre os países com democracia parlamentar da Europa Ocidental e os controlados pela URSS, União Soviética, na de Leste, situação traduzida por Winston Churchill como o estabelecimento de uma Cortina de Ferro a dividir a Europa em duas.

Para que o Presidente Truman assumisse uma posição de resistência, digamos assim, à agressividade das provocações soviéticas, foi fundamental a publicação de um artigo assinado por Mr. X na Revista Foreign Affairs, que reproduzia o conteúdo do Longo Telegrama subscrito pelo diplomata George Kennon, profundo conhecedor da realidade Soviética. Assim é que os EUA resolveram, através do seu Conselho de Segurança National, adotar uma estratégia de dissuasão, no entendimento de que, enquanto o Ocidente dominasse a maioria dos centros industriais do Mundo, asseguraria uma vantagem de longo prazo e evitar-se-ia o desencadear de outra guerra global.

O período mais explosivo foi o dos primeiros quatro anos, entre 1947 e 1951, a seguir à proclamação da Doutrina Truman. A fase inicial da Guerra Fria corresponde pois ao período em que as bases em território português eram mais importantes para as estratégias das grandes potências.  Na fase final (1944-45) da II Guerra Mundial, quando se ia confirmando a força dos Aliados, os Açores haviam sido encarados principalmente como um pilar de uma ponte aérea para projetar o poder dos EUA na Europa. E esta seria a sua principal função também nos cenários da Guerra Fria.

Para ser obtido diplomaticamente um acordo estável para os americanos permanecerem nos Açores em tempo de paz, Washington propôs desde o primeiro momento que Portugal fosse convidado a aderir à NATO, embora tal convite o colocasse como o único regime não democrático entre os fundadores da Organização. Como explica A. J. Telo em “Bases estrangeiras e estratégias no Portugal contemporâneo” (2008), o acordo que veio a ser estabelecido em 1951 entre Portugal e os Estados Unidos permitia a presença das forças americanas na Base das Lajes por cinco anos renováveis e sem contrapartidas diretas para Portugal que as recusou por, como foi afirmado numa formulação provavelmente cínica, pretender “não criar servidões”. O texto do entendimento foi até particularmente inventivo: sendo um acordo formalmente bilateral, fundamentava-se, contudo, nas razões da constituição da NATO, que é multilateral. O acordo previa nomeadamente que a utilização das bases fosse automática para os fins definidos pela NATO e que elas estariam ao dispor dos parceiros da Aliança Atlântica desde a primeira hora de um eventual conflito.

É curioso que, por iniciativa portuguesa, as facilidades concedidas aos EUA fossem alargadas ao Reino Unido, que não as havia pedido nem as tencionava utilizar em tempo de paz. É caso para se refletir que, da aliança sem querer “criar servidões” à atitude subserviente, pode ir uma curta distância, mesmo que em nome de uma aliança mais antiga…

Embaixador George Kennan, inspirador da Doutrina Truman e defensor de uma postura política de contensão nos palcos da Guerra Fria. Kennan representou os EUA em Moscovo e em Lisboa.

Convém recordar que, da rivalidade entre dois blocos, a Guerra Fria evoluiu para uma ameaça nuclear: por muita diplomacia que estivesse em funcionamento para ser evitada a hipótese de se entrar mesmo num conflito armado, que se traduziria numa catástrofe global, a verdade é que a produção e a exibição de força sempre foram crescentes e conhecidas. Até ao colapso da URSS a partir de 1989: décadas a “brincar com o fogo!”, se me é permitida tal simplificação de linguagem…   

Artigo publicado pelo autor do jornal Correio dos Açores de 31.10.2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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