Americanos em Santa Maria, franceses nas Flores

O aeródromo (de Santa Maria) seria utilizado como uma base logística dos Estados Unidos até ao final da II Guerra Mundial, quando chegou a ter 500 aeronaves estacionadas em trânsito.

Amália ao desembarcar em Santa Maria

Antes de pertencer à Comunidade Económica Europeia, de que, como se sabe, não foi dos países fundadores, Portugal teve por parte dos membros da CEE posições de abertura e solidariedade que visavam criar condições para que o nosso país se pudesse sentir encorajado a encarar os fundadores das comunidades europeias como parcerias alternativas às que vinha cultivando com as suas colónias africanas, que então classificava eufemisticamente como províncias ultramarinas. Um futuro processo de adesão, para ser membro da Europa Comunitária, viria a tomar muito tempo: para além de continuar colonizador, Portugal persistia em não adotar um regime democrático.

Contudo, as resistências à inclusão na Europa democrática eram então suavizadas pela circunstância de o nosso país já ter sido considerado como membro fundador da NATO: uma margem pragmática de colaboração económica acabava por se verificar por influência da política externa dos fundadores, que era precisamente integradora. Desde logo, o tratado iniciador da reaproximação entre a França e a Alemanha, depois da guerra devastadora de 1939-45, ocorrera em 1951 – permitindo instituir a CECA, Comunidade Económica do Carvão e do Aço. Foi, assim, significativo que os apoios, designadamente militares, que até então vinham dos EUA e da Inglaterra, no âmbito da pertença à NATOAliança Atlântica, passassem a vir da França e da Alemanha, que se iam tornando os principais parceiros de Lisboa.

Se fora possível um acordo com o Reino Unido para os ingleses se instalarem na Terceira no decorrer da II Guerra Mundial e aí construírem o que veio a ser a Base e posteriormente o Aeroporto das Lajes, também existiu acordo para que os americanos, que tinham começado por ser admitidos como força de apoio dos ingleses, se instalassem em Santa Maria e aí construíssem, recorrendo à Pan American Airways como instrumento visível, uma pista de aviação. O aeródromo (de Santa Maria) seria utilizado como uma base logística dos Estados Unidos até ao final da II Guerra Mundial, quando chegou a contar com quinhentas aeronaves estacionadas em trânsito.

Terminada a guerra, o aeroporto entrou nas suas funções civis para escala das ligações internacionais entre a América e a Europa, ligando os Açores a Lisboa que era então uma das principais entradas no continente europeu.

Quando a SATA começou a voar, dois anos mais tarde, as ligações que começou a realizar foram entre São Miguel (aeródromo de Santana), Santa Maria e Terceira. O Faial só teria uma pista em 1971. Ou não?

Pois, não foi bem assim, ou não só assim: de facto, a SATA, até 1971, só realizava voos entre Santana, Santa Maria e Lajes, mas não é menos verdade que a baía da Horta teve intensa atividade aeronáutica desde 1919 e até ao fim da II Guerra Mundial, enquanto permanecia a crença de serem os hidroaviões a prevalecer, em vez da utilização de pistas terrestres. Por outro lado, as Forças Armadas de França haviam construído uma pista nas Flores em 1966, poucos anos antes, portanto, da construção da que ficaria localizada em Castelo Branco, no Faial.

E para que servia a pista dos franceses? Na verdade, não funcionava, antes da de Castelo Branco/Horta, para ligações inter-ilhas, mas, em termos do desenvolvimento causado na Ilha pela presença dos franceses, podemos considerar algumas analogias com a presença do contingente americano em São Miguel, na altura da Grande Guerra; na Terceira, desde 1943, e em Santa Maria no último ano da II Guerra Mundial.

Foquemo-nos por agora nas Flores: Num relatório de Outubro de 1975, onde fazia um balanço dos últimos anos do Acordo Luso-Francês de 1964, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português concluía que a “presença francesa se revestiu de consequências extremamente benéficas para a Ilha das Flores” dado que, “para assegurar o funcionamento da Estação das Flores, foram criadas diversas infraestruturas” que podiam ser utilizadas pela sociedade civil, das quais se salientavam o melhoramento e construção da rede rodoviária da ilha, o melhoramento da rede hidroelétrica, a construção de um aeródromo, a construção de um hospital e de uma zona habitacional. As despesas destes melhoramentos foram “largamente favoráveis a Portugal” uma vez que, “desde 1964 até 1974 a França despendeu (…) um total de 350.000 contos”, enquanto que Portugal gastou “cerca de 10.000 contos”.

Segundo uma reportagem televisiva, da RTP-Açores, em 1989, fica evidenciada a influência que o bairro residencial dos franceses na vila de Santa Cruz teve na vida da Ilha. Daniel Maguerez, comandante da Base Francesa das Flores, salientou então, como exemplo dessas marcas, a existência de casamentos entre franceses e açorianas.

Eu próprio já sublinhei em artigos anteriores que a presença dos americanos em São Miguel em 1918-19, quando decorria a Grande Guerra, trouxe benefícios diretos e indiretos para a qualidade de vida dos naturais da Ilha, o mesmo vindo a acontecer na Terceira a partir da II Guerra Mundial, aí por muito mais tempo e com efeitos mais visíveis nos empregos criados e, nessa área, na qualificação proporcionada nos locais de trabalho. A ideia de associar no presente texto os casos de Santa Maria e das Flores prende-se com o facto de a dimensão e a população destas duas ilhas serem comparáveis, podendo mais facilmente evidenciar-se assim o facto de a presença de unidades mais pequenas ou por menos tempo poderem ter provocado efeitos idênticos e proporcionalmente equiparáveis.

Artigo publicado no jornal Correio dos Açores de 28.11.2021.

Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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