Dias livres – uma pitada do Algarve

Chamemos “dias livres” a uma pequena série de crónicas de viagem que agora se inicia. Dias livres, depois do longo período de restrições devido a pandemia, para viajar, conviver com os amigos e desfrutar das maravilhas da Natureza e da Humanidade. Sim, porque o mundo real, por enquanto, é mais belo do que aquele que nos passam nos telejornais, onde perdominam os Cavaleiros do Apocalipse sobre a Terra.

Estávamos em fevereiro, as restrições às viagens entre o Reino Unido e Portugal abrandavam, por isso combinámos um encontro com os nossos amigos no Algarve. Uma casa no Ferragudo, próxima da Praia dos Caneiros, o céu profundamente azul, assim como o mar, o sol de inverno aberto, luminoso, alegra ainda mais o nosso encontro.

Os nossos amigos chegaram de Londres, já estão de calções e de T-shirt e já se deliciaram com uns lingueirões e uma cataplana algarvia ao almoço, segundo fotografias que nos enviaram para nos antecipar o gosto pelo sol e pelos petiscos. Nós chegamos mais tarde de Lisboa, por sinal bem cinzenta a condizer com a Londres que eles tinham deixado.

Combinámos o nosso encontro em Silves, por isso, quando saímos da autoestrada, entrámos na Rota da Laranja – extensos pomares, carregadinhos de frutos deliciosos, naturalmente mais firmes e suculentos do que aqueles que, à distância, chegam à nossa mesa. É uma paisagem que nos orgulha e encanta. Afinal, parece que foram os portugueses que terão introduzido a laranja na Europa a partir da China, no século XVI, donde foi levada para o continente americano. Por este motivo, em certas línguas “laranja” e “Portugal” confundem-se: em romeno, laranja diz-se “portucálâ; os búlgaros e os turcos chamam-lhe “portukal”; os gregos, “portukáli”; na língua persa falada em países como o Irão, Afeganistão, Arménia, Geórgia e Iraque, a palavra “portugal” significa “laranja”.

Loja e Atelier de Cerâmica “Al Tannur” em Silves (Algarve). Foto de G. Damas in https://gdamas.com/al-tannur-silves-algarve/

Silves mostra-se autêntica, preservada da invasão do turismo de massas, com as suas ruas antigas e íngremes até ao castelo, igualmente cuidado e com belas vistas para a planície dos laranjais e para o rio Arade, o mesmo rio que passa em Ferragudo, onde vamos ficar, na margem oposta a Portimão.

Na rua que sobe até ao castelo, encontrámos uma loja e atelier de cerâmica, onde trabalha um casal de artesãos, que investiga a azulejaria portuguesa e cria as suas obras de arte, baseadas em desenhos históricos. Um dos nossos amigos não resistiu à compra de azulejos e foi vê-lo, uns meses mais tarde, na sua casa de Londres, a exibi-los orgulhoso, na sua mesa de jantar.

À entrada do Castelo de Silves, classificado Monumento Nacional desde 1910, encontra-se uma estátua de D. Sancho I, a lembrar-nos que foi no seu tempo que a cidade foi conquistada aos Mouros, levando a que ele fosse o primeiro Rei a intitular-se “de Portugal de dos Algarves”.

Depois de Silves, voltamos a tempo de ver o pôr-do-sol na Praia dos Caneiros e os mais corajosos ainda deram um mergulho. De volta à casa, ouve-se o silêncio e o céu limpo vai tomando as cores suaves do crepúsculo. É tempo para um chá, silencioso àquela luz diáfana, degustando o belo dia que tivemos. Ainda vamos sair para jantar e, no dia seguinte, queremos ir a Sagres.

Praia dos Caneiros em Ferragudo – Algarve (foto da autora, fevereiro de 2022)

Sabíamos que Sagres era ventoso, mas não sabíamos que, ali, o mar e o céu se uniam num azul tão intenso e maravilhoso. De acordo com a literatura, o nome “Sagres” tem origem em “Promontorium Sacrum”, designação dada por autores gregos e romanos a partir de século IV a.C. Para nós, Sagres está associado à lenda da escola náutica fundada pelo Infante D. Henrique, que levou aos descobrimentos portugueses.

Depois da pitoresca vila de Sagres, segue-se a fortaleza, situada num promontório escarpado com cerca de 1 quilómetro de comprimento, 300 metros de largura e 40 metros de altitude, cuja função foi a de controlar a costa. Hoje, o cabo faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, sendo uma reserva natural que possui uma complexa diversidade, tanto de fauna como de flora, com exemplares únicos na região. Como tal, está sujeita a estatutos de conservação da natureza.

Vista de Sagres, com o Cabo de São Vicente no horizonte (foto da autora, fevereiro de 2022)

Caminhar no promontório, visitar a singela igrejinha de Nossa Senhora da Graça, observar a vegetação rasteira tão diversa, a descrição das aves que por lá passam ou nidificam, os pescadores que, do alto dos penhascos, se firmam contra o vento e as alturas a puxar a linha, o mar, sempre o mar, como se fosse o fim do mundo, enche-nos as vistas e a alma. Isto é Portugal, o país das laranjas e do mar azul!

Publicado por Ana Azevedo

Profissional da Aviação

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