Dias livres – no Alentejo profundo

Ao entrar na Quinta do Anjo, concelho de Palmela, onde nos íamos juntar aos nossos amigos, constatámos que o mês de maio estava nos jardins e nos quintais das casas, numa profusão de cores, entre rosas, limões e nêsperas, sugerindo-nos uma terra de abundância.

Dali partimos para a nossa viagem ao Alentejo “profundo”. A região que íamos descobrir (redescobrir, para alguns de nós) foi assim designada pelo amigo que nos conduzia. Profundo por ser nos confins de Portugal, onde as terras e as águas se misturam com as de Espanha. Profundo também por ser remoto e rural, onde a vida pode ser dura, com temperaturas a atingir mais de 40ºC no verão.

Olaria Palatim, São Pedro do Corval (foto da autora, 2022)

Os jardins, hortas e vinhedos foram dando lugar aos sobreiros e aos pinheiros mansos. Depois, uma paragem para o almoço mostrou que já estávamos em terras alentejanas: migas e carne de porco frita. Passagem na margem de Évora e eis a nossa primeira incursão no destino: São Pedro do Corval, o maior centro oleiro do nosso país, no concelho de Reguengos de Monsaraz. Começamos pela “Casa do Barro”, Centro Interpretativo situado numa antiga olaria, que promove a cultura do barro na região e mostra belas e coloridas peças das mais de 20 olarias em funcionamento. Visitámos uma delas, onde vimos objetos nasceram das mãos do oleiro, as mãos pareciam também de barro, daquele de que Deus terá feito o Homem.

Instalámo-nos num empreendimento turístico contíguo a um vasto olival, no sopé do Castelo de Monsaraz, que, empoleirado, desafia a planície e o nosso desejo de lá subir. Foi quando o sol já descia que nos aventurámos pelas ruas de calçada e fachadas brancas, com portas antigas e janelas pequeninas da aldeia medieval. Poucas almas nas ruas, umas sentadas nos degraus de uma porta, três na amurada da fortificação, numa conversa silenciosa, com andorinhas esvoaçando desvairadas ao declínio da luz. O sol punha-se num horizonte mais longínquo que a planície, todas as cores se transformavam e nós silenciámos também, sentindo-nos no centro do mundo ou, talvez, no centro de nós próprios, tão avassaladora é a Natureza.

Pôr-do-sol visto do Castelo de Monsaraz (foto de Manuel Branco, 2022)

O dia seguinte iria ser preenchido com uma ida ao Castelo de Noudar, a Barrancos e um passeio de veleiro no Alqueva.

O caminho até ao Castelo foi longo e cheio de solavancos, através do Parque de Natureza de Noudar, coutada para caça turística, azinheiras retorcidas de troncos negros e algumas manadas de toiros. Passamos pela Herdade da Coitadinha, cujo nome nos intriga: afinal, “coitadinha” significa “coutada pequena”, boa terra para caça. A história desta herdade está ligada à vila medieval de Noudar e aos refugiados da guerra civil espanhola. O castelo situa-se entre a ribeira da Múrtega e o rio Ardila, tendo sido acabado de construir em 1307 no reinado de D. Dinis. Estava fechado para obras de recuperação. Ainda assim, sentimos que valera a pena ir àquele fim do mundo para observar os fios de água nos vales profundos à sua volta e os montados a perder de vista, onde Portugal e Espanha se unem num contínuo indecifrável.

Cartaz do restaurante “A Esquina” em Barrancos (foto da autora, 2022)

Barrancos revela-se alva no casario e asseada no empedrado das ruas. As vozes são melodiosas, soando a castelhano, genuínas de simpatia. O almoço não podia ter sido mais autêntico naquelas paragens: ovos mexidos com espargos selvagens; não pudemos resistir a umas farófias altas para sobremesa, mais ovos é certo, temos de fazer penitência. A decoração não nos fazia esquecer que estávamos em Barrancos: os cartazes das touradas de cada ano passado.

O Alqueva, o maior lago artificial da Europa, com a sua grande barragem e as suas ilhas. Explicara o nosso amigo que, antes da barragem, a terra era árida e reinava a pobreza. De facto, “Alqueva” é uma palavra derivada de “alqueive”, terra de pousio ou deserta, de solos secos. Hoje, é verde, com extensos olivais e vinhedos. No cais fluvial estava à nossa espera um veleiro, mas logo percebemos que, sem vento, seria preciso usar o motor. Éramos uma dúzia de passageiros, uns portugueses, outros estrangeiros. O barqueiro tem amor àquela região: conta o antes, a subida das águas que ele mediu todas as semanas, a transferência da Aldeia da Luz, mantendo as ruas e as casas nas mesmas posições originais, onde acabam as águas portuguesas a meio do rio Guadiana e as árvores a meio de um monte que assinalam a fronteira com Espanha. O seu ajudante traduz o essencial num inglês que diz ser “de praia”. Saímos na Ilha Dourada, assim chamada devido ao reflexo do sol nas micas que polvilham as suas areias, para esticar as pernas ou tomar um banho. No regresso, a mesa enche-se de pão alentejano, azeitonas, queijo, presunto e outros enchidos apetitosos, vinho, água e refrescos – é quase um jantar, à luz de um sol que vai descendo refletido nas águas lisas, com Monsaraz de um lado e Morão do outro, a emergir das suas fortalezas.

Alqueva (foto da autora, 2022)

Cansados, ainda vamos a tempo de um mergulho na piscina aquecida pelo sol, que se punha no olival, com um rio de luz até ao nosso olhar. No dia seguinte, queríamos visitar um monumento megalítico, antes de voltar às nossas casas. Combinámos que a manhã seria para aproveitar o espaço onde nos encontrávamos e que almoçariamos no restaurante-museu mesmo ao lado.

É um antigo lagar de azeite transformado em museu-restaurante, onde se mantêm as estruturas e peças do lagar e é também local de exposição de obras de arte: pintura e escultura vanguardista que nos impressionou. A ementa sóbria apenas contém pratos típicos da região. Variámos as nossas escolhas: duas sopas de tomate, uma sopa de cação, cada qual constituindo refeições principais, um prato de carne de porco e, claro, pão, azeitonas e vinho de Reguengos; como sobremesa, finalmente, uma deliciosa e inventiva encharcada, que o nosso amigo andava a recomendar como o melhor doce alentejano. À saída do local, encontrámos um selo que nos chama a atenção: “Genuineland, Europe unseen, algo que vale a pena investigar para perceber a qualidade e o sucesso turístico deste Alentejo profundo.

O Cromeleque do Xerez é um monumento megalítico, datado de entre 4000 e 3000 a.C., com formato quadrangular, constituído por 50 menires de granito, cuja altura varia entre 1,20m e 1,50m, à volta de um menir central de 4m, em forma fálica. Foi o único a ser transferido de local devido à barragem do Alqueva. Recorremos ao que sabemos sobre este tipo de edificação e impressiona-nos a sua geometria. Cultos da natureza e dos astros? Ligação do ser humano e de todas as coisas ao Universo? Foi este saber ancestral de pertencer ao Universo que nos invadiu quando emudecemos a nossa amena tagarelice perante o pôr-do-sol na muralha de Monsaraz? Ou no isolamento de Noudar e no rasgar da imensa massa de água do Alqueva? Ou ainda no sol das azeitonas e do vinho e no labor do pão alentejano?

De alma cheia, regressámos às nossas pequenas vidas, já saudosos dos maravilhosos dias passados em conjunto. O Alentejo foi profundo.

Publicado por Ana Azevedo

Profissional da Aviação

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