Sem fim à vista ou à vista de um triste fim?

Uma cidadã russa presa em Março de 2022, em São Petersburgo, por protestar contra a guerra com dois grandes cartazes.
 

Não era meu propósito escrever sobre a guerra na Ucrânia. Porém, alguns comentários na comunicação social levaram-me a fazer uma breve recapitulação sobre o assunto.

Encontrei, por acaso, o livro “A Guerra na Ucrânia”, Ed. D. Quixote, publicado em 2015, que compila diversos artigos publicados nesse ano por reconhecidos especialistas em relações internacionais, que me deu mais informação sobre o passado. 

Antes de mais, convém ter presente que a invasão da Ucrânia pela Rússia não começou em 24 de Fevereiro de 2022, mas sim oito anos antes.

A Ucrânia tinha negociado um Acordo de Associação com a União Europeia (UE), mas consta que, por pressão de Putin, o presidente ucraniano decidiu não assinar esse acordo em Novembro de 2013. Esta decisão desencadeou enormes protestos e manifestações dos ucranianos, cuja repressão provocou largas dezenas de mortos.

Gerou-se um ambiente de quase guerra civil que levou ao abandono do poder pelo presidente Yanukovych. O que, até hoje, é considerado pela Rússia como um golpe de Estado promovido pelos EUA e UE, pelo que não reconhece a legitimidade dos actuais governantes, apesar de os mesmos terem sido eleitos em eleições livres.

Neste contexto de alguma anarquia, surgiram movimentações para a independência e integração na Federação Russa das regiões de Donetsk, Luhansk e Crimeia, que foram apoiadas pela Rússia, e que conduziriam à luta entre os separatistas armados pela Rússia e apoiados por paramilitares russos e as forças militares ucranianas.

Recorde-se que foi no âmbito desse conflito que foi abatido o Boeing 777 da Malasyia Airlines, que efectuava o voo MH17 entre Amesterdão e Kuala Lumpur, quando voava sobre a Ucrânia, em Julho de 2014, morrendo todos os 298 passageiros e tripulantes. A investigação independente concluiu que a aeronave tinha sido abatida por um míssil de fabrico russo disparado pelos separatistas.

No início de 2014, a Rússia anexou pela força militar a Crimeia, onde aliás possuía uma importante base. Além disso, a Rússia foi fornecendo equipamento militar pesado aos separatistas até que, em Agosto de 2014, o exército russo invadiu o Donbas, infligindo duras perdas às forças militares ucranianas.

No fim de 2014 e início de 2015, chegaram a ser estabelecidos acordos ou protocolos de cessar-fogo, negociados com a mediação da Alemanha e da França. Porém, embora reduzindo as hostilidades, nunca foram integralmente respeitados por nenhuma das partes.

Terá sido uma oportunidade perdida para construir uma paz duradoura, que talvez tivesse sido conseguida com um esforço adicional dos mediadores e a boa vontade dos beligerantes. Na verdade, os protocolos estabelecerem princípios pouco claros e nunca terão sido assumidos sinceramente por nenhumas das partes.

Já em 2014/2015 foi discutida a hipótese defendida por alguns países de fornecimento de equipamento militar e treino à Ucrânia, o que foi rejeitado sobretudo por influência da Alemanha (Angela Merkel) com o argumento de “evitar uma escalada do conflito”. Foram, no entanto, aplicadas à Rússia diversas sanções económicas.

Pode especular-se que, se então lhe tivessem sido fornecidas armas e treino militar, a Ucrânia, estaria melhor capacitada para enfrentar a recente invasão ou até que esta não teria acontecido; mas não se pode reescrever a história.

O que é certo é que as sanções, apesar de produzirem algum efeito na economia russa, sobretudo quando os preços do petróleo estavam em baixa, não tiveram consequência na posição da Rússia face à Ucrânia. Pelo contrário, então como agora, a Rússia aumentou a sua estratégia belicista e procurou encontrar parceiros económicos alternativos.

Hoje, perante a invasão em curso, as sanções económicas impostas pela UE, Reino Unido, Canadá e E.U.A. foram significativamente aumentadas e, para além disso, passou a ser considerado imprescindível o fornecimento de armas e de treino.

Porém, os efeitos da invasão e das sanções decretadas fazem-se sentir dramaticamente na Europa, nomeadamente: com o aumento do custo da energia, das matérias-primas, dos cereais, a inflação, o aumento das taxas de juro. Além disso, o desemprego tem aumentado na Europa, designadamente na Alemanha, o que, pelo menos em parte, é atribuído ao efeito dos refugiados ucranianos.

A UE importa da Rússia mais de 40% do gás que consome, mas a dependência das importações daquele país varia entre os Estados-membros, sendo em alguns casos a dependência quase total. A Rússia já cortou o fornecimento a alguns países europeus e, perante o encerramento do gasoduto Nord Stream 1 para manutenção, todos temeram e tremeram perante a possibilidade de os russos o manterem fechado, certamente para gáudio de Putin. Entretanto, foi retomado, mas de forma reduzida, o fornecimento de gás.

A Comissão Europeia propôs um Plano Europeu de Redução da Procura de Gás, para reduzir o risco e os custos para a Europa em caso de maior perturbação no fornecimento. No entanto, em caso de corte de fornecimento de gás pela Rússia, muitos países da UE terão grandes problemas no próximo inverno.

Naturalmente, os sucessivos pacotes de sanções aplicadas à Rússia e a muitos dos seus líderes e oligarcas também ali produziram e produzem efeitos; mas, sendo um regime autoritário, em que a liberdade de manifestação está suprimida, tudo o que for negativo para o poder é silenciado.

Creio que é nessa diferença tão importante, que separa a Rússia dos estados apoiantes da Ucrânia, que Putin e a sua equipa confiam para o rápido desgaste dos governos destes países. Perante o agravamento das condições de vida, consequentes da diminuição do poder de compra, a opinião pública tenderá, não obstante medidas sociais dos seus governos, a ficar cansada da guerra, a culpar os governos pelas consequências dela advenientes, a contestar as medidas ou a falta delas, a crescer a conflitualidade social para melhorar salários e reduzir os preços, causando perda de popularidade dos governantes.

Os principais governantes europeus, designadamente, Espanha, França, Itália e Alemanha, não têm maioria absoluta e/ou lideram coligações frágeis em que as forças integrantes têm diversidade de interesses e objectivos. Veja-se o que aconteceu com Mario Draghi.

A Alemanha está à beira de uma recessão económica devido aos aumentos dos preços da energia e a confiança empresarial está muito baixa devido aos receios do corte de fornecimento do gás russo. Também nos E.U.A. a posição de Joe Biden é frágil dada a sua reduzida popularidade, tornando incerto o êxito da sua recandidatura.

Acresce que o populismo grassa nestes países com conotações políticas à direita, mas também a esquerda (caso da França), que calvagará a onda do descontentamento.

Há, também, fundado receio que a situação actual possa conduzir a uma recessão económica na UE e nos E.U.A.

No caso da França, são conhecidas as posições pró-russas de Le Pen, de Mélenchon e de Zemmour (cuidadosamente disfarçadas antes das últimas eleições). Na Itália Salvini era confesso admirador de Putin. Para além disso, são, também, conhecidas as amizades com Putin de vários ex-governantes de topo na Europa, tais como Fillon, ex-primeiro ministro francês; Schroder, ex-chanceler alemão; Karin Kneiss, ex-Ministra das Relações Exteriores da Áustria que, quando casou em 2018 (já depois da anexação da Crimeia) teve Putin no seu casamento.

Alguns destes políticos receberam empréstimos ou subsídios vindos da Rússia e muitos ex-governantes receberam altos salários como administradores de empresas de gás e petróleo russas ou como lobbyistas ouintermediários em negociações.

Na Hungria, um governo de maioria absoluta vai mantendo uma relação amistosa com Putin e adversa para com a Ucrânia, beneficiando do fornecimento de energia russa e chantageando a UE para aprovar algumas sanções à Rússia.

Nos E.U.A., Trump, no meio de outras afirmações desconexas, teceu elogios a Putin, já após a invasão da Ucrânia, pedindo-lhe informações sobre os negócios do filho de Biden na Ucrânia. Steve Bannon conselheiro de Trump e activista da extrema-direita americana  tinha (tem?) relações cordiais e de muito entendimento com Alexander Dugin, mentor de Putin.

Em Portugal, o PCP e cronistas da sua órbita (e não só), criticam a Europa e E.U.A. pelo seu apoio a um dos beligerantes da guerra o que será uma forma de perpetuar o conflito. Recentemente, a ex-Ministra da Justiça do Governo de Passos Coelho, num artigo no Público, teceu duras criticas a Zelensky por exigir “apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à derrota e humilhação da Rússia”, questionando se não será “apenas um perverso narcísico que constitui um obstáculo à cessão das hostilidades e a um acordo político razoável e sustentável”.

O que será um acordo político razoável e sustentável e para quem?

É, também, evidente que a Ucrânia tem fragilidades ao nível político e militar, designadamente, uma forte componente nacionalista e as componentes russófona e colaboracionista, para além dos problemas de corrupção.

A meu ver, estes e outros sinais indicam que, em breve, a Ucrânia será pressionada para aceitar um cessar-fogo. Porém, um cessar-fogo em que a Rússia não vai abrir mão das posições já conquistadas e a Ucrânia e os países seus apoiantes não reconheceriam a anexação dos territórios. Será que se e manteriam as sanções ou estas seriam aliviadas?

Certamente, haveria negociações, mas a situação tenderia a eternizar-se com provocações e ataques aqui e ali no terreno, até que voltasse a degenerar em guerra ou que o governo ucraniano fosse substituído por políticos pró-russos.    

Há quem diga que essa seria, também, a estratégia da Rússia que, entretanto, parece querer conquistar mais terreno, para reforçar a sua posição. Além disso, vai passando a mensagem de que pretende expandir os seus objetivos para se apoderar de mais território no sul e leste da Ucrânia, para além do Donbass, e, também, de que pretende ajudar o povo ucraniano a libertar-se deste regime. Talvez seja uma forma de pressionar a aceitação da solução referida.

Entretanto, a Rússia, já começou a “russificar” os territórios ocupados introduzindo a sua moeda, o seu sistema administrativo, os seus governantes, a sua televisão e forçando os residentes a adquirir a nacionalidade russa.

Estando afastada a entrada no conflito de outras forças militares, creio que a Ucrânia não tem possibilidade de vencer a guerra. Apesar da heroicidade e resistência dos seus militares e do seu povo em geral, e apesar da ajuda militar externa, a superioridade bélica da Rússia é enorme em meios terrestres, navais e aéreos, a maior parte dos quais a Ucrânia não dispõe. A Rússia tem capacidade para ir matando, destruindo e causar o pânico a centenas ou milhares de quilómetros de distância.

Como escreveu Vasco Pulido Valente numa das suas cónicas no Público em Fevereiro de 2015: “ A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o ocidente ver ou não ver.”

Alexander Dugin, um dos mentores de Putin, que defende um “fascismo genuíno, verdadeiro e radicalmente revolucionário”, proclama que não deve existir um estado ucraniano e que toda a costa do Mar Negro deve ser russa e que a Rússia deve retomar os Estados pós-soviéticos. Segundo ele: “Não vamos limitar-nos a anexar a Crimeia. Isso é certo. Ontem a reunificação com a Crimeia foi uma vitória para nós. Hoje é já uma coisa infinitamente pequena.”

Parece haver uma estratégia a prazo concertada ou tacitamente aceite por players de várias origens políticas, acentuadamente anti-democráticas; ou seja, estamos perante uma estratégia, um processo em curso.

Isto, remete-nos para o que disse Paul Mason, professor universitário, jornalista e escritor britânico, autor do livro Como Travar o Fascismo, em entrevista à revista Visão de 07/07/2022: “Os fascistas do século XXI não têm pressa de que chegue o “grande dia”. Ao contrário de Mussolini ou Hitler, que tinham pressa, os novos fascistas preferem uma estratégia a longo prazo. O grande problema é que, pelo que se vê, isso é bem capaz de resultar.”

Ora, parece que, nesta estratégia paulatina, a Rússia sairá vencedora, anexando pela força uma parte (por agora) da Ucrânia. Se assim for, estaremos perante uma situação em que o “crime compensa”. Como disse a primeira-ministra Moldova em entrevista recente à CNN: “Se um país pode começar uma guerra de anexação sem qualquer respeito pela lei internacional, então ninguém está a salvo.”

Este é um dos grandes problemas desta invasão que, infelizmente, parece encaminhar-se para um triste fim.

%d bloggers like this: