Algumas mortes e uma ressurreição (?) – parte I/II

I. Comecemos pelas mortes. A morte, apesar de a sabermos inevitável e natural, quase sempre surpreende. Diga respeito aos nossos familiares, amigos, conhecidos ou figuras públicas. Talvez porque nos obriga a pensar, ainda que de relance, na nossa própria morte. Esta, provavelmente, chegará quando menos esperarmos.

No entanto, a verdade é que a morte se impõe aos outros que não a nós próprios. Eduardo Lourenço, numa entrevista, disse:

“Ninguém pode dizer que a morte não assuste. Mas, curiosamente, com o tempo a morte vai ser aceite, não só como inevitável, mas pode adquirir… mudar de signo, mudar de sinal, se essa morte é a morte do outro. Ninguém vive a sua morte. A nossa morte não é vivida. É sempre qualquer coisa que nos é imposta, em absoluto, de fora para dentro. A morte do outro, essa é a nossa morte.”  

Não vou fazer obituários, até porque não tenho conhecimentos que mo permitam fazer com propriedade. Além disso, muito do que havia a dizer em relação a alguns dos falecidos já foi dito, mas apesar disso gostaria de fazer umas breves referências:

1. Mikhail Gorbachev – os mais velhos terão bem viva a memória das imagens televisivas que, em Novembro de 1989, mostravam as pessoas a demolir o muro que dividia a Alemanha em duas, perante a passividade das forças policiais e militares.

Estávamos a ver o mundo a mudar. A canção “Wind of Change” dos “The Scorpions” tornou-se, então, uma espécie de hino da mudança, à semelhança de algumas canções que acompanharam os acontecimentos de 25 de Abril de 1974 em Portugal.

O vocalista daquela banda, Klaus Meine, referiu: “nunca esqueceremos o homem que mudou o mundo, o homem que mudou o nosso mundo.” (…)“Sem ele, a reunificação e, especialmente, o 9 de novembro não teriam ocorrido tão pacificamente. Não teria sido essa revolução pacífica que foi, sem que nenhum tiro tivesse sido disparado, sem que ninguém tivesse sido assassinado. Se os tanques não saíram no dia 9 de novembro é por causa de Gorbachev, é a ele que temos que agradecer”.

Nesta frase do músico está o essencial da questão e, provavelmente, o maior feito de Gorbachev: não ter mandado avançar os tanques para reprimir as manifestações populares, como aconteceu antes e depois dele noutros lugares (e mesmo no tempo dele no Azerbaijão e na Lituânia tentando travar os independentistas e provocando mortos e feridos).

Após a queda do muro de Berlim, as repúblicas soviéticas foram proclamando a independência, levando à fragmentação da União Soviética e os Estados “aprisionados” pela “cortina de ferro” foram-se libertando das amarras políticas.

“O Homem é o Homem e as suas circunstâncias”, na expressão de Ortega y Gasset. Não apenas como ser, mas também na ação. Os acontecimentos não podem ser descontextualizados da sua história, das suas circunstâncias. Obviamente, a ação de Gorbachev desenvolveu-se nuns aspectos impulsionada, noutros condicionada pelas circunstâncias.

Assim sendo, parece despropositado o comunicado do PCP ao afirmar: “Gorbachev foi um dos principais responsáveis pela destruição da União Soviética e a restauração do capitalismo na Rússia” (…) “contribuiu para abrir caminho à contra-ofensiva do imperialismo para recuperar as posições perdidas ao longo do século XX e impor a sua hegemonia no plano mundial, com as graves consequências que daí advieram para os direitos dos trabalhadores, a soberania dos povos, a segurança na Europa e a paz no mundo”.

Aliás, o projeto de Gorbachev era reformar sem causar rupturas, sendo acusado por alguns de demasiado conservador e por outros de excesso de liberalismo. Pelo contrário, Boris Iéltsin, seu sucessor, prosseguiu uma “terapia de choque”, com uma política agressiva de privatizações e liberalização económica conduzida de forma que produziu efeitos desastrosos.

Esbatidas as paixões, ainda quentes, a História há-de fazer o devido enquadramento.

Por agora, respeite-se o homem que, em alguns momentos cruciais, contribuiu par manter os tanques nos quartéis, para o controlo das armas nucleares. O homem a quem associaremos sempre as palavras “glasnost” e “perestroika”.

2. Isabel II de Inglaterra – refiro-me a ela pensando na minha mãe que gostava de acompanhar as notícias sobre a rainha.

As duas eram quase da mesma idade. Minha mãe, mais nova cerca de um ano, morreu uns meses antes. Recordo-me que, na minha meninice, havia lá em casa uma colecção de revistas – creio que era o “Século Ilustrado” – com a reportagem do casamento da rainha que folheei muitas vezes.

Apesar do alargado consenso nas extensas homenagens à falecida, aqui e ali vão aparecendo indivíduos isolados ou em pequenos grupos manifestando a sua discordância em relação à sucessão dinástica com cartazes do tipo “Not my king”.

A instituição monárquica parece algo arcaico, para nós que nascemos e vivemos em Repúblicas e que na escola primária tivemos de decorar os nomes dos Reis e Rainhas, seus cognomes e feitos.  

A verdade é que, na Europa, as monarquias continuam implantadas em vários países que são verdadeiras democracias pluralistas que se regem pelo princípio da separação de poderes e pela alternância democrática. O mesmo se verifica no Japão em que, curiosamente, a figura do Imperador sobreviveu ao desastre da II Guerra Mundial e à perda do império.

É provável que, a breve prazo, se verifique a saída de alguns “reinos” da Commonwealth dados os seus resquícios coloniais e, também, a recuperação de ideias independentistas por algumas regiões do Reino Unido, muito por culpa do “Brexit”.

No entanto, por agora, as monarquias europeias não estão a ser contestadas por movimentos republicanos exacerbados. Mesmo na Espanha, em que a instituição monárquica foi suspensa e reinstalada pelo Franquismo, não parece haver uma onda anti-monarquia.

A verdade é que a democracia retirou praticamente todos os poderes políticos ao monarca reduzindo-o a mera representação do Estado. Os detentores do poder político são os Parlamentos e os Governos que deles emanam. 

É fácil imaginar que, em alguns Estados republicanos, a frase “Not my President” faça sentido para muitos que não votaram naquele governante e que discordam das políticas por ele prosseguidas. Em qualquer caso, impõe-se respeitar a vontade da maioria, princípio essencial da democracia, quer se trate de Repúblicas ou de Monarquias.

3. Javier Marías

Escritor espanhol, um dos maiores da actualidade, com mais de 40 livros publicados. Sobre ele já aqui se pronunciou José Adriano Ávila com a competência que lhe advém de ser um seu leitor assíduo.

Há dias encontrei a republicação de uma interessante entrevista que o Expresso publicou no início de 2019 e da qual respigo algumas ideias que me parecem caracterizadoras do nosso tempo e que dispensam mais comentários:

“O homem procura coisas que fazer, justificações. Mas qualquer pessoa minimamente normal, que não seja megalómana, sabe que a influência que cada um pode ter é minúscula. O que não significa que as missões humildes não sejam importantes. O ato de cuidar de quem depende de mim, como os filhos, justifica que me levante da cama todos os dias de manhã. Uma coisa que me deixa perplexo é o facto de haver demasiada gente à procura de causas longínquas. Gente que fala das crianças da Índia e que não é capaz de ver as que estão ao seu lado ou no seu próprio país. É mais bonito, mais abstrato dizer que se está preocupado com a Humanidade em geral. Este tipo de causas sempre me pareceram estranhas, porque não desencadeiam ação alguma.”

(…)

“Um negacio­nista do Holocausto não quer saber se há filmes, testemunhas, fotografias ou investigação que documentam o que aconteceu. Ele atém-se à tese da invenção do genocídio pelos Aliados. Não há racionalidade nesta escolha além da que decorre de pensar que cada um pode montar o puzzle da realidade ao seu gosto. Agora está na moda dizer que Colombo foi um genocida.

(…)

“Uma boa parte da Humanidade está instalada na fantasia — não na ficção, porque a ficção é reconhecível. (…) Regrediu-se para um certo medievalismo, que ocorre no meio de um avanço tecnológico sem precedentes.”

(…)

“As pessoas começam a não diferenciar os campos. Nunca como hoje se julgaram as obras de ficção pelo seu conteúdo mais do que pelo seu valor literário. Há dias li uma notícia que me deixou perplexo: na onda do MeToo, umas autoras de romance policial defendiam que, neste género literário, as mulheres não fossem retratadas como submissas, femmes fatales ou assassinas. O que isto indica é uma falta de discernimento do que há séculos estava perfeitamente claro: a distinção entre o território real e o ficcional.”

(…)

(A propósito da ascensão da extrema-direita e do populismo) É muito preocupante e perigosa. E tem a ver com o ressentimento latente na maior parte das pessoas. Algumas mais, outras menos, todas estão insatisfeitas ou invejam algo, sentem que o seu trabalho não foi suficientemente reconhecido ou vêem que os outros vivem melhor. Isso nem sempre domina a personalidade, mas em certos momentos pode dominar. E quando há políticos que avalizam ou atiçam o ressentimento, ele salta facilmente. Ora, se este se tornar predominante nas relações humanas, o perigo é imenso, em qualquer época e lugar. No outro dia, li um artigo de uma brasileira que contava como, desde a vitória de Jair Bolsonaro, as pessoas se comportam como se tivessem carta branca. O que dá medo não é só este indivíduo que foi eleito, são os 56% dos votos que o elegeram.”

(…)

“Sempre tivemos reis absolutistas e depois um ditador que se manteve 39 anos no poder. Por esta razão fui sempre um grande defensor da União Europeia. E chama-me a atenção que muitos jovens olhem para a minha geração com uma certa inveja, por termos vivido uma fase épica e lutado contra Franco. Ora, não desejo isso a ninguém.

Imaginam que a guerra é um acontecimento romântico, assim como a ditadura. Falta-lhes o lado épico da vida. (…) Querem uma épica? Defendam a União Europeia de todos os ataques de que é alvo, vindos de fora e de dentro. Para mim, a UE é o equivalente à Inglaterra de Churchill — que resistiu, sozinha, até os Estados Unidos entrarem na guerra. Claro que a UE é imperfeita, burocrática e desigual, mas é uma invenção extraordinária num continente como o nosso. A Europa esteve em guerra, com umas matanças incríveis, até há 80 anos. E desde então, tirando o dos Balcãs, não tem havido conflitos. Só por isto, como é que algum europeu — húngaros, polacos, italianos — pode atacar a UE?”

(…)

“Configurei-me como criança e como jovem, essa foi a minha existência primordial e, portanto, a verdadeira. Não sei se alguma vez lhe aconteceu reunir-se com os antigos colegas de escola. Eu tive esta experiência há uns anos. E é curioso, mas todas as pessoas que o fazem sentiram o que eu senti: que esse tempo era o verdadeiro. O verdadeiro mundo era aquele, o da infância. A verdadeira vida. Queremos continuar a ser quem fomos e, quando isso já não é possível, assistimos à nossa substituição por aquele outro, que por acaso tem a nossa memória, mas que já não é a mesma pessoa.”

(…)

“Em resumo, tive medo, todos o tivemos, e temo-lo quase diariamente. Alguns sentem-no quando se deitam, outros quando acordam de manhã. Mas é preciso lutar contra a coerção do medo, contrapor-lhe a pergunta: “para quê serve?” E vemos que não serve para muito.”

4. Cte. José Gonçalves Monteiro

Obviamente a História não falará dele. No entanto, ele tem um lugar importante na História da SATA Internacional.

Foi dos primeiros comandantes contratados no fim de 1995 (o primeiro voo comercial foi realizado e 17 de Novembro de 1995). Durante muitos anos Director de Operações de Voo contribuiu para a organização da nova empresa.

Era pessoa educada e de trato afável. Tecnicamente competente, estudioso e actualizado. Depois de se reformar assessorou a Autoridade Aeronáutica (ANAC) e, também, a SATA.

Gratidão e boas recordações.

Cte José Gonçalves é o terceiro a contar da esquerda para a direita – Foto do Arquivo SATA, reproduzida na página 234 do livro SATA, de Sociedade de Estudos a Sociedade Gestora de Participações Sociais, da autoria de Ermelindo Peixoto

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