Muitas falhas na informação publicada

O conceito de opinião pública, formulado há cem anos, é discutido desde que Walter Lippmann escreveu, em 1922, o livro com esse título, em que consta a ideia de que tal se traduz na reação da nossa sociedade ao que a compreensão humana interpreta das notícias do seu mundo. Contribuir para essa interpretação seria o grande objetivo do trabalho jornalístico, da sua seleção e intermediação dos factos ocorridos no mundo e da respetiva transmissão para o público.

Textos e reportagens para jornais já se faziam há mais tempo, mas a formulação do conceito de opinião pública, seguida da adoção do som da rádio, na década de 1930, e da imagem televisiva, cerca de vinte anos mais tarde, alteraram o papel dos jornalistas – quando, atualmente, procuramos, manhã cedo, as notícias de um jornal, constatamos que a maioria está desatualizada, há pelo menos, várias horas e que, na rádio ou na TV, as podemos mesmo ter já ouvido ou visto no dia anterior. Isto para nem mencionar as chamadas redes sociais em que a opinião é produzida e divulgada instantaneamente, sem qualquer filtro. Contribuir para criar e influenciar a opinião pública vai muito para além da simples transmissão das notícias.

A comunicação social utiliza filtros, sim: uma das justificações invocadas para a baixa qualidade dos nossos jornais é o fraco investimento para que possam dispor de recursos correspondentes aos existentes na grande imprensa mundial – as redações costumam estar, entre nós, bem fracas de meios para a investigação própria, bem como para a edição e a revisão dos textos, os tais filtros de aperfeiçoamento.

Daí, a opção frequente pela importação, limitada muitas vezes à cópia, de temas investigados e editados por outros, ficando-se pela passividade na seleção das notícias ou na verificação dos factos.

Este panorama pode ser constatado por cada um de nós ao depararmos com informação publicada sobre as realidades que conheçamos melhor.

Vejamos casos concretos: ficamos perplexos ao verificar que, perante a ligeireza com que alguns políticos afirmam, por exemplo, que empresas como a TAP ou a Azores Airlines (SATA Internacional) deveriam ser vendidas ou fechadas, os jornalistas se limitem a ser “pé de microfone”, sem questionarem, na altura, ou após investigação, se tais afirmações serão razoáveis, ou resultam tão só de simples demagogia.

Com efeito, o mínimo a esperar do papel dos jornalistas, em tais situações, seria a preocupação com o chamado contraditório.

Por um lado, quando, continuando nos exemplos citados, lhes é facultada informação sobre os lucros obtidos no terceiro trimestre do ano, seria de esperar algum escrutínio sobre se isso será mesmo motivo de notícia: se uma companhia de aviação nem na época alta da sua atividade tivesse resultados positivos, isso, sim, seria novidade!

Por outro lado, à afirmação aligeirada de que a aviação portuguesa com atividade internacional bem pode ser alienada, ou fechar as portas, teria de haver algum contraponto informativo: a TAP tem uma rede de fornecedores e prestadores de serviços mais extensa do que o seu próprio núcleo direto – ficava tudo desempregado?  

Parece evidente, a quem pensar um pouco mais longe, que os prejuízos económicos e sociais resultariam maiores do que os resultados negativos atuais – por alguma razão os diversos poderes que têm exercido a respetiva tutela sobre a atividade têm também optado por a manter, valorizando mais as suas receitas e os respetivos contributos sociais.

Já em relação à SATA, não ocorrerá ao interlocutor dos políticos demagogos interrogar-se – e questioná-los – sobre os efeitos da extinção da atividade nacional e internacional nas contas da operação entre as ilhas? Fazer cessar a diluição de custos que a partilha de recursos provoca, implicaria rapidamente que o peso percentual dos custos dos recursos da SATA Air Açores subisse para níveis idênticos aos de há trinta ou quarenta anos.

Retomando o raciocínio inicial sobre o papel da comunicação social na formação da opinião pública – faz mesmo falta uma maior aposta no exercício do contraditório!

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Publicado por José Adriano Avila

Quadro da aviação comercial aposentado. Formado em Comunicação Social. Estuda Relações Internacionais.

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